Texto utilizado no Curso de Mariologia da Escola de Fé e Catequese Mater Ecclesiae, onde ministro este curso.

Por certo o rosário não é um exercício litúrgico, nem universal da Igreja. De fato, não é comum entre os cristãos orientais, que preferem expressar sua devoção a Maria mediante o canto ou a recitação do Acatista. No entanto, trata-se de uma oração privada bastante sólida, tanto por uma longa tradição como por seu conteúdo cristológico e evangélico (MC 42-55). Não pode ser simplesmente menosprezado ou eliminado da piedade dos fiéis, se bem que seja necessário revisar sua posição dentro da oração global da Igreja (sobretudo a litúrgica) e renová-lo pastoralmente de maneira que a forma de o recitar possa ser de fato benéfica para o progresso espiritual dos cristãos.

A origem do Rosário

Uma das razões para menosprezá-lo talvez seja não o entender. Muito ilustrativa para o propósito de conhecer melhor o rosário pode ser uma breve olhada em sua história:

Uma antiga tradição faz de São Domingos o seu fundador. Na realidade ele recolheu um costume já existente e o popularizou ao usá-lo como um meio pastoral, pois “costumava alternar a pregação dos mistérios da vida de Jesus com a reza de uma série de ave-marias para garantir, por intercessão da Virgem, a eficácia de sua pregação”. (Antonio Royo Marin – †2005). Pouco antes dele, no início do século XII, difundiu-se no Ocidente o costume de usar como oração a saudação do anjo a Maria, unida à de Isabel (Lc 28,42). Na mesma época já era costume dos cristãos iletrados recitarem 150 pais-nossos divididos em três seções (manhã, tarde e noite), em correspondência com os 150 salmos da Liturgia do Breviário. Era o “Breviário dos iletrados”. Pouco a pouco, foi-se introduzindo como alternativa a recitação da saudação angélica (mesmo sem a oração “Santa Maria, Mãe de Deus”, que foi acrescentada no século XV).

Na realidade o rosário teve várias formas na história. Em suas origens (assim fez S. Domingos), era uma “catequese com Maria”: para fazer obstáculo à difusão da heresia albigense (versão medieval do maniqueísmo, que ensinava o domínio do mal sobre o mundo), pregavam-se amplamente as verdades de nossa redenção, e então dava-se um descanso para que fossem assimiladas na meditação, enquanto se rezavam ou cantavam as ave-marias. Pouco depois da morte do Santo, um discípulo seu, o mártir S. Pedro de Verona, fundou as “fraternidades marianas”, cuja espiritualidade utilizava a oração do rosário com a finalidade de “confirmar os cristãos na fé por meio de Maria”.

No século XV dividiu-se o rosário nas três partes de 50 unidades, que se foram estruturando de modo que servissem mais sistematicamente para assimilar o evangelho: um monge de Colônia fez uma lista de 50 frases que aludiam a outros tantos ensinamentos evangélicos, que brevemente eram enunciados a cada ave-maria para que, mediante o rosário, os fiéis fossem conhecendo a verdade revelada. No fim do mesmo século acrescentou-se a oração “Santa Maria”, e as três partes de 50 unidades forma divididas em cinco “mistérios” cada uma, de maneira que através delas se meditasse nos principais acontecimentos gozosos, dolorosos e gloriosos de nossa salvação. Era essa a forma que tinha o Papa Pio V (devoto do rosário, como bom religioso dominicano), por intermédio da bula Consueverunt Romani Pontifices (1569) aprovou sua prática como uma forma de oração muito apropriada para toda a cristandade. Pouco depois, em sua bula Monet Apostolus (1573) o mesmo Pontífice instituiu a festa do Santo Rosário, que devia ser celebrada no 1º domingo de outubro. Ensinava o “Papa do Rosário”:

a)       A oração é necessária para superar as dificuldades da guerra e as outras calamidades;

b)      O rosário inventado por S. Domingos é um meio simples ao alcance de todos;

c)       Esse meio revelou-se de grande eficácia contra as heresias e os perigos para a fé, e realizou numerosas conversões;

d)      Recomenda a aceitação do rosário a todo o povo cristão.

Que é o Rosário

Antes de mais nada, é uma profissão de fé, ainda que particular. É bastante conhecida a expressão do cardeal Newman: “O rosário é o credo feito oração”.

Na verdade, não se pode imaginar uma educação ou reeducação da fé mais estimulante e segura do que o rosário, o rosário inteiro transformado em hábito vivo. O credo transforma-se no que é: oração. Aqui encontra-se a fé por inteiro, a fé verdadeira, a que começa pela humildade e se transforma em louvor” (Cardeal Gabriel-Marie Garrone, †1994).

Em que sentido é uma profissão de fé? Quem explica é Reginald Garrigou-Lagrange (†1964): “passa diante de nossos olhos todo o mistério de nossa redenção, ainda que não seja em fórmulas abstratas, mas expresso nos mistérios vivos da história de Cristo, que são nosso caminho ao Pai”.

Carlos Ignacio González,SJ,
Maria Evangelizada e Evangelizadora, Ed. Loyola, 1990