Olhando o Antigo Testamento, vemos como a fé é o início da salvação do povo: “Creu Abraão, e isto lhe foi imputado como justiça” (Gn 15,6). Creu o povo e foi o início da sua salvação (Ex 3,1ss. sarça ardente: Moisés recebe a missão de libertar o povo; Ex 4,31: Moisés cumpre a missão. O povo crê, se ajoelha, se inclina. A Vulgata diz: “Credidit populus et proni adoraverunt“).

Na origem do povo de Deus do novo Israel, temos outro ato intenso de fé. É precisamente o ato de fé da Virgem. Maria creu na palavra do Anjo, que era a Palavra de Deus, e a salvação faz a sua entrada no mundo. São Bernardo de Claraval, nas suas homilias em louvor da Virgem Maria (Hom. 4,8-9), descreve de um modo muito vivo, para não dizer dramático, o momento da Anunciação, momento no qual estávamos como que pendurados nos lábios da Virgem: “Ouviste, ó Virgem, que vais conceber e dar à luz um filho, não por obra de homem – tu ouviste -, mas do Espírito Santo. O Anjo espera tua resposta: já é tempo de voltar para Deus que o enviou. Também nós, Senhora, miseravelmente esmagados por uma sentença de condenação, esperamos tua palavra de misericórdia. Eis que te é oferecido o preço de nossa salvação; se consentes, seremos livres. Todos fomos criados pelo Verbo eterno. Mas caímos na morte; com uma breve resposta tua, seremos recriados e novamente chamados à vida…”. E Bernardo continua detalhando uma possível resposta de Maria, que, em síntese, é esta: “Se disseres sim, seremos salvos; se disseres não, estamos perdidos para sempre” (Liturgia das Horas, 20/12).

Está aqui subjacente toda a reflexão já feita no séc. II por Santo Ireneu de Lyon com seu princípio da recapitulação: Cristo o Novo Adão, Maria a Nova Eva.

Dom Aloísio Cardeal Lorscheider,OFM
Cardeal Arcebispo de Aparecida (1995-2004)
Maria Trono de Sabedoria (Academia Marial)