Trabalho apresentado ao Programa de Complementação de Estudos em Teologia (PUC-RJ) como requisito parcial para obtenção do diploma de Bacharel em Teologia. Professor Cesar Augusto Kuzma.

Ler a Constituição Pastoral Gaudium et spes do Vaticano II. Responda na sequência: Como a eclesiologia se coloca diante das novas fronteiras – Quais são elas? Como ir até elas.

Entre esperanças e temores a Igreja, sente a necessidade de conhecer e compreender o mundo em que está inserida. Mundo de profundas e rápidas transformações que se estende progressivamente por toda a terra, e como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo imensas dificuldades para o ser humano, que ao mesmo tempo é capaz de dispor de abundantes riquezas, possibilidades e poderio econômico, mas, no entanto, imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos.

A Igreja, procura entender a evolução e domínio da técnica e da ciência, que transforma a face da terra e aos poucos vai dominando os espaços e tempos humanidade, gerando inclusive, preocupações de ordenação devido ao aumento populacional.

Também, a Igreja acompanha as mudanças na ordem social, devido às transformações nas comunidades tradicionais, bem como as relações de convivência e difusão de sociedades industriais, acarretando aumento da vida urbana, provocando o surgimento de novos e mais perfeitos meios de comunicação social, levando muitos à emigração, aumentando sem cessar as relações, promovendo claramente benefícios em algumas nações em detrimento de outras, principalmente as nações ligadas a tradições mais antigas, que são privadas de suas liberdades.

A Igreja se depara com as transformações de mentalidade, principalmente entre os mais jovens, onde pais e educadores encontram não raro, crescentes dificuldades no desempenho da sua missão. Há também perturbação de comportamentos, que afetam a própria vida religiosa, onde cada dia mais as pessoas aderem a uma fé pessoal, onde grandes massas se afastam da religião, até negando a existência de Deus.

Também a Igreja se depara, com uma rápida evolução social de forma desordenada, gerando desigualdades, contradições e desequilíbrios, entre o saber e o pensar, entre a eficiência prática e as exigências da consciência moral, que geram tensões à pressão das condições demográficas, econômicas e sociais, dificuldades entre gerações, discrepância entre raças, grupos sociais, nações ricas e pobres e ambição ideológica e egoísta coletiva existente entre nações.

Desta forma, pela primeira vez na história dos homens, todos os povos têm já a convicção de que os bens da cultura podem e devem estender-se efetivamente a todos, onde as pessoas e os grupos buscam uma vida plena e livre. Desta forma, o mundo atual apresenta-se, assim, simultâneamente poderoso e débil, capaz do melhor e do pior, tendo patente diante de si o caminho da liberdade ou da servidão, do progresso ou da regressão, da fraternidade ou do ódio.

Diante destas novas fronteiras, a Igreja apresenta Jesus Cristo, como resposta e solução para os problemas do mundo contemporâneo, onde os desequilíbrios de que sofre o mundo atual estão ligados com aquele desequilíbrio fundamental que se radica no coração do homem, pois no íntimo de seu coração, muitos elementos se combatem, gerando divisão e tantas discórdias que acarretam na sociedade.

Enfim, a Igreja propõe, uma eclesiologia includente e em constante diálogo com o mundo. Uma eclesiologia que acredita em Jesus Cristo, morto e ressuscitado e que pode oferecer aos homens de nosso tempo, pelo seu Espírito, a luz e a força para poderem corresponder à sua altíssima vocação.

Quais são as novas fronteiras?

Estas são as novas fronteiras: 1) O matrimônio e a família, 2) a cultura humana, 3) a vida econômico-social, 4) política, 5) a comunidade internacional e a paz (GS,46).

Como ir até estas novas fronteiras?

Sobre cada uma delas devem resplandecer os princípios e as luzes que provêm de Cristo e que dirigirão os cristãos e iluminarão todos os homens na busca da solução para tantos e tão complexos problemas”. (GS,46)

1) O matrimônio e a família

Com esta fronteira, a Igreja deve ir na alegria: por ser comunidade de amor e respeito à vida; comunidade que busca esforços para ampliar esta missão; comunidade que se esforça por proteger a dignidade e seu alto valor sagrado; comunidade que convida a todos os seus membros, a viver a santidade.

No encontro com esta fronteira, a Igreja fortalece a vivência do amor conjugal convidando repetidas vezes os noivos a se alimentar e robustecer o seu noivado com um amor casto, e os esposos a sua união com um amor indiviso. Lembrando que esse amor, ratificado pela promessa de ambos e, sancionado pelo sacramento de Cristo, deve ser fiel, de corpo e de espírito, na prosperidade e na adversidade;

A Igreja ensina, que o matrimônio e à família são ordenados à geração e educação da prole para que sejam fecundos; ensina que, os esposos estejam dispostos a colaborar com o amor do criador e salvador, para que a cada dia mais e mais, enriqueça a sua família. Mesmo que faltem os filhos, tantas vezes ardentemente desejados, o matrimônio deve conservar seu valor e indissolubilidade, como comunidade e comunhão de toda a vida.

Ainda, no encontro com esta fronteira, a Igreja orienta ao casal, de primar pelo amor conjugal e o respeito pela vida humana. Alertando que, aborto e o infanticídio são crimes abomináveis. Orienta também o casal a buscar o progresso e a promoção do matrimônio, fazendo da família uma escola de valorização humana, com plenitude de vida e missão, exigindo, o comum acordo dos esposos, e a diligente cooperação dos pais na educação dos filhos.

2) a cultura humana

Com esta fronteira, a Igreja reconhece que a pessoa humana necessita da cultura. Pois, são diferentes modos de usar das coisas, de trabalhar e de se exprimir, de praticar a religião e de formar os costumes, de estabelecer leis e instituições jurídicas, de desenvolver as ciências e as artes e de cultivar a beleza, que dão origem a diferentes estilos de vida e diversas escalas de valores.

A Igreja vai a esta fronteira, de forma dialogal, pois entende que, apesar dos novos caminhos que se abrem ao progresso e difusão da cultura, também aumenta cada dia mais no mundo o sentido da autonomia e responsabilidade, o qual é de máxima importância para a maturidade espiritual e moral do gênero humano. A Igreja entende, e é testemunha do nascer de um novo humanismo, no qual o homem se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história.

Mas, nesta fronteira há inquietações, devido às múltiplas antinomias, onde deve prevalecer o diálogo; harmonia entre o antigo e novo; conciliação da especialização e a capacidade de contemplação e admiração que conduzem a sabedoria; reconhecer a legitimidade da autonomia, sem cair num humanismo meramente terreno ou até hostil à religião. Assim, a Igreja acena para a cultura humana, que deve progredir, se desenvolvendo harmônica e integralmente, onde todos se ajudem nas tarefas comuns, vivendo fraternalmente.

A Igreja ensina que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade. Deve, por isso, insistir, antes de mais, para que a cultura, desviando-se do seu fim, não seja obrigada a servir as forças políticas ou econômicas.

Nesta fronteira, a Igreja exorta a vida, pois, os fiéis em estreita união com os demais homens do seu tempo e procurem compreender perfeitamente o seu modo de pensar e sentir, qual se exprime pela cultura. Saibam conciliar os conhecimentos das novas ciências e doutrinas e últimas descobertas com os costumes e doutrina cristã, a fim de que a prática religiosa e a retidão moral acompanhem neles o conhecimento científico e o progresso técnico e sejam capazes de apreciar e interpretar todas as coisas com autêntico sentido cristão.

3) A vida econômico-social

A Igreja vai a esta fronteira solicitando, respeito e promoção da dignidade e da vocação integral da pessoa humana, para o bem de toda a sociedade. Pois, reconhece o homem como protagonista, o centro e o fim de toda a vida econômico-social. Com esse fim, a Igreja, no decurso dos séculos e, sobretudo nos últimos tempos, formulou e proclamou à luz do Evangelho os princípios de justiça e equidade, postulados pela reta razão tanto na vida individual e social como na internacional.

Nesta fronteira a Igreja alerta para o aumento populacional e, sobre as aspirações do gênero humano, consequentemente, alerta para o esforço do aumento da produção agrícola e industrial e a prestação de serviços. Apontando, que a finalidade fundamental da produção não é o mero aumento dos produtos, nem o lucro ou o poderio, mas o serviço do homem.

Continuando seu alerta, a Igreja diz que o desenvolvimento econômico deve permanecer sob a direção do homem; nem se deve deixar entregue só ao arbítrio de alguns poucos indivíduos ou grupos economicamente mais fortes ou só da comunidade política ou de algumas nações mais poderosas. Também alerta, para a necessidade das iniciativas dos indivíduos e das associações livres, que sejam coordenadas e organizadas harmônicamente com a atividade dos poderes públicos.

Nesta fronteira, se exige justiça e equidade, necessária para o progresso econômico, e que haja regulação na economia de tal maneira, para que a vida dos indivíduos e das famílias não se torne insegura e precária. Deverá se evitar qualquer espécie de discriminação quanto às condições de remuneração ou de trabalho junto aos trabalhadores, inclusíve, para com aqueles oriundos de outro país ou região.

Ainda, nesta fronteira, a Igreja orienta para que os investimentos devam tender a assegurar suficientes empregos e rendimentos, tanto para a população atual como para a de amanhã.

4) política

Nesta fronteira, a Igreja reconhece as profundas transformações nas estruturas e instituições, em consequência da sua evolução cultural, econômica e social; pois todas estas transformações têm uma grande influência na vida da comunidade política. E aponta para, que os direitos da pessoa são, com efeito, uma condição necessária para que os cidadãos, quer individualmente quer em grupo, possam participar ativamente na vida e gestão da coisa pública. Estabelecendo uma colaboração mais ampla, a fim de que todos os cidadãos, e não apenas alguns privilegiados, possam gozar realmente dos direitos da pessoa.

A Igreja, diz que a comunidade política existe, portanto, em vista do bem comum; nele encontra a sua completa justificação e significado e dele deriva o seu direito natural e próprio. Diz ainda, quanto ao bem comum. Que este compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e fàcilmente a própria perfeição.

Na fronteira exercida pela política, há uma crescente complexidade, que força com frequência o poder público a intervir nos assuntos sociais, econômicos e culturais, com o fim de introduzir condições mais favoráveis para os cidadãos. Aqui a Igreja alerta para a falta de humanidade, que não raro, alguma autoridade política venha assumir, como formas totalitárias ou ditatoriais, que lesam os direitos das pessoas ou dos grupos sociais.

Com esta fronteira a Igreja entende que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade nem está ligada a qualquer sistema político determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana, onde comunidade política e Igreja são independentes e autônomas. Mas, ambas servem a vocação pessoal e social dos mesmos homens. E tanto mais eficazmente exercitarão este serviço para bem de todos, quanto melhor cultivarem entre si uma sã cooperação, tendo igualmente em conta as circunstâncias de lugar e tempo.

5) A comunidade internacional e a paz

Com esta última fronteira, a Igreja, através do Concílio, explicando a verdadeira e nobilíssima natureza da paz, e uma vez condenando à desumanidade da guerra, quer apelar ardentemente para que os cristãos, com a ajuda de Cristo, autor da paz, colaborem com todos os homens no estabelecimento da paz na justiça e no amor e na preparação dos instrumentos da mesma paz.

Assim, a Igreja fomenta, à luz desta realidade, que a guerra não foi eliminada do mundo. E enquanto existir o perigo de guerra e não houver uma autoridade internacional competente e dotada dos convenientes meios, não se pode negar aos governos, depois de esgotados todos os recursos de negociações pacíficas, o direito de legítima defesa. Cabe assim aos governantes e aos demais que participam na responsabilidade dos negócios públicos, o dever de assegurar a defesa das populações que lhes estão confiadas, tratando com toda a seriedade um assunto tão sério.

Nesta fronteira a Igreja chama a atenção para toda a ação bélica que tende indiscriminadamente à destruição de cidades inteiras ou vastas regiões e seus habitantes. Tudo isto, é um crime contra Deus e o próprio homem, que se deve condenar com firmeza e sem hesitação.

Deste modo, a Igreja prega uma enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião publica. Aqueles que se consagram à obra de educação, sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como gravíssimo dever o procurar formar as mentalidades de todos para novos sentimentos pacíficos.

Nesta fronteira a Igreja é contra a afirmação de que o aumento da população do globo, ou ao menos de algumas nações, deve ser absoluta e radicalmente diminuído por todos os meios e por qualquer espécie de intervenção da autoridade pública, A Igreja exorta a todos que evitem as soluções, promovidas privada ou publicamente ou até por vezes impostas, que sejam contrárias à lei moral. Porque, segundo o inalienável direito ao casamento e procriação da prole, a decisão acerca do número de filhos depende do reto juízo dos pais e de modo algum se pode entregar ao da autoridade pública.

Ainda, nesta fronteira a Igreja pede homens, que evitem o escândalo por haver algumas nações, geralmente de maioria cristã, na abundância, enquanto outras não têm sequer o necessário para viver e são atormentadas pela fome, pela doença e por toda a espécie de misérias. É, portanto, absolutamente necessário que a Igreja esteja presente na comunidade das nações, para fomentar e estimular a cooperação entre os homens; tanto por meio das suas instituições públicas como graças à inteira e sincera colaboração de todos os cristãos, inspirada apenas pelo desejo de servir a todos.

Perante as imensas desgraças que ainda hoje torturam a maior parte da humanidade, e para fomentar por toda a parte a justiça e ao mesmo tempo o amor de Cristo para com os pobres, a Igreja, julga oportuna a criação do Pontifício Conselho da Justiça e da Paz, organismo, incumbido de estimular a comunidade católica na promoção do progresso das regiões necessitadas e da justiça social entre as nações.