Este é o convite que hoje fazemos: – aprender e perceber a presença de Deus na vida. Pois sem esta descoberta continuamos embrenhados no mundo, agarrado as coisas materiais e até na vida cristã, tendemos a ficar agarrados a devoções que não despertam o verdadeiro sentido da experiência de um Deus conosco, que se faz companheiro de caminhada.

Quando observamos uma árvore viçosa, com uma raiz firme, fazendo com que esta tenha vida, por analogia, entendemos que a seiva da existência, que mantém a árvore é a espiritualidade. Esta árvore somos nós, se não tivermos uma firme raiz na espiritualidade, nossa fé será vazia. Para o cristão, não basta só ir à Missa, mas há que participar da Missa e sentir a seiva da espiritualidade que brota da Liturgia, para ser testemunha nos ambientes em que frequenta, daquilo que se experimenta a partir do contato com este Deus que se revela. Que nossas raízes em Deus sejam fecundas.

Mas, a espiritualidade, também se apresenta como “Para-raios” nas tempestades da vida. Pois, nossas vidas são realidades concretas de altos e baixos e precisamos estar preparados para vencer as tempestades e aprender carregar os fardos uns dos outros (Gl 6,2). Precisamos ter equilíbrio, quando advém as tempestades, precisamos de força para suportar. Pessoas com forte espiritualidade não brigam, não discutem, mas dialogam e se entendem. Que nossos Para-raios não estejam com data de validade vencida, para sempre suportarmos com tranquilidade as tempestades da vida.

O cristão que vive a espiritualidade, entende que possui antenas para captar os sinais de Deus na vida. São pessoas antenadas, contemplativas na ação. Por onde andam, por onde vão, estão sempre observando os sinais do mundo e captando o “tanto quanto” tais sinais o levam para Deus. O cristão há de ser pessoa firme, que segue o rumo dos sinais de Deus e que não se abate pelas nuvens (pecado) que pode até causar interferências.

Também, espiritualidade, será viver um caminho de iluminação, sentindo-se amado e tocado por Deus, devendo também ser transmissor desta luz para aqueles que estão na escuridão. Há uma canção do Pe. Zezinho que diz: “Dentro de mim existe uma luz / Que me mostra por onde deverei andar / Dentro de mim também mora Jesus / Que me ensina buscar o seu jeito de amar / Minha luz é Jesus / E Jesus me conduz / Pelos caminhos da paz”. Sim caminhar pelos caminhos da paz é preciso, pois é um dos atributos do Reino que Jesus veio pregar. Que a luz de Deus habite em nossos corações.

Espiritualidade é cultivar a relação com o sagrado, que dá consolo, esperança e sentido para a existência; é vivência da fé que motiva as ações e alimenta nossas convicções; é um jeito de viver o seguimento de Jesus. Sabemos e entendemos que a espiritualidade se expressa em ritos e devoções, mas não se reduz a isso, pois, precisa de despojamento de nossa parte, onde fazemos uma opção de vida para em tudo Amar e Servir.

Nesta experiência na busca da espiritualidade cristã, entendemos que precisamos ser um cristão com sinal MAGIS, ter aquele algo mais que faz a diferença. Descobrimos que precisamos estar enraizados e alimentados da Palavra de Deus em nossas vidas; entendemos que há momentos que precisamos ser para-raios para suportar com paciência os problemas que recaem sobre nós; precisamos estar antenados para nos servirmos das graças de Deus; e iluminados, para ser luz e sal para aqueles que estão na escuridão. Mas o núcleo da espiritualidade cristã, será sempre esta trilogia: Seguir Jesus, entrar no seu caminho de vida, aprender com ele.

Nos primeiros séculos do cristianismo, aqueles convidados a ser batizados e que optavam pela Iniciação Cristã, de certo modo, passavam a seguir os passos de Jesus e assim experimentavam mais de perto seu mistério, onde descobriam que o crucificado era o ressuscitado. Era a Mistagogia, processo de guiar o catecúmeno para a experiência do encontro, para assim crescerem na fé, na esperança e no amor.

Posteriormente, a Mistagogia passou a ser aplicada na compreensão dos mistérios de Deus nos ritos litúrgicos, hoje temos a Liturgia, onde a Trindade se revela, pois, celebramos o Mistério da Fé, em nome de um Deus que é Pai, Filho e Espírito Santo. Na Iniciação Cristã, Catequese e Mistagogia vão juntas: é um conhecer e experimentar. Há necessidade de um acompanhamento para que esta experiência seja transformadora.

Após a Iniciação Cristã, o cristão recém-chegado precisa crescer na opção por Jesus, onde através de alguns passos, como: a) mística; b) amor solidário; c) autocontrole; d) sabedoria, irá aos poucos descobrindo na sua vida as vias de seguimento de Jesus. Apontaremos algumas dicas fundamentais a este crescimento espiritual, pois “assim como passear, caminhar e correr são exercícios corporais, chamam-se exercícios espirituais diversos modos de a pessoa se preparar e dispor para tirar de si todas as afeições desordenadas. E, depois de tirá-las, buscar encontrar a vontade divina na disposição de sua vida para sua salvação” (Sto. Inácio de Loyola – EE).

a) VIA MÍSTICA: Depois, de todo este período na Iniciação Cristã, não se deve desperdiçar este tempo de graça, mas é preciso Cultivar a intimidade com Deus, ou seja, trabalhar em nossos corações com ânimo e generosidade, as sementes lançadas de cada encontro, para que seja acompanhada e dê frutos.

Que tal ter como propósito de vida a prática da oração, pois somente assim conseguiremos nos manter enraizados em Deus; exercitar em nossas vidas a entrega, a ação de graças e a súplica; meditar a Palavra de Deus, através da leitura diária da Bíblia. Vamos experimentar trinta minutos por dia. Segue alguns passos: a) preparar a mente e o corpo. Colocar-se na presença de Deus; b) invocar o Espírito Santo; c) ler o texto bíblico, imaginando as cenas, as pessoas, as palavras; d) silenciar; e) conversar com Jesus (pedir, agradecer, louvar).

Dez passos para a leitura orante:

  • 1. INVOCAÇÃO AO ESPÍRITO SANTO;
  • 2. LER com calma e atentamente o texto da Bíblia (fechar a Bíblia);
  • 3. FAZER um profundo silêncio interior, lembrando o que leu;
  • 4. IMAGINAR: a) as pessoas, as coisas, o lugar; b) ouvir o que dizem; c) participar ou entrar em cena;
  • 5. ATUALIZAR A PALAVRA, ligando-a com a vida;
  • 6. COLÓQUIO: Falar com Deus, ouvir, agradecer…;
  • 7. FORMULAR UM COMPROMISSO para a vida;
  • 8. REVISÃO DA ORAÇÃO (prestar atenção ao mistério): a) palavra ou frase que mais me tocou; b) sentimento mais forte; c) apelo maior; d) maior dificuldade; e) de minha parte fui fiel?; f) se não fui bem… quais os motivos (causas) peço perdão;
  • 9. REGISTRAR o que foi mais importante;
  • 10. ESCOLHER UMA FRASE COMO RESUMO PARA MEMORIZAR.

Ainda, dentro da via mística, o cristão entenderá que os passos propostos, não podem apenas ser propostos, mas experimentados, pois o cultivo pessoal da oração será fundamental, pois precisamos ser cristãos autênticos diariamente. Também se faz necessário, ter uma comunidade de referência, onde possamos partilhar, crescer e caminhar livre dos apelos do mundo.

O cristão há que fazer silêncio e se retirar; nos momentos mais exigentes, sempre exercitar a oração de discernimento e assumir o risco das decisões tomadas; o cristão há de ter como propósito, a cada ano, fazer o seu projeto pessoal de vida e revisitá-lo periodicamente. Será sempre bom e útil, revisitar os sete pontos do Kerigma (Anúncio), que aprendemos na Iniciação Cristã: 1) Que somos eternamente amados por Deus; 2) Mas, o pecado nos interpela; 3) Daí o Pai, envia o Filho para nossa salvação; 4) Mas, é preciso ter Fé no Ressuscitado e nos converter a Ele; 5) Assim, Recebemos os Dons do Espírito Santo; 6) que nos fortalece pela Oração; 7) para em tudo Amar e Servir à Comunidade e Sociedade.

Mas, devemos ter cuidado aos riscos de uma espiritualidade reduzida à devoções e ritos, onde podemos ficar presos a uma religiosidade puramente para uma satisfação pessoal; encobrindo questões humanas mal resolvidas; buscando a autossuficiência religiosa. Todo cuidado é pouco, pois não raro, católicos não bem instruídos navegam por estes mares.

b) AMOR SOLIDÁRIO: Deus é Amor. Assim devo cultivar o amor, mesmo em meio a diversidades, pois tudo toca o Mistério de Deus, um Deus que é Pai, é Filho, é Espírito Santo, e faz com que este amor se manifeste em diferentes níveis: a) aqueles que estão próximos (família, amigos); b) aqueles que mais necessitam (quantas pessoas nos pedem orações e quantos nos caminhos da vida nos estendem às mãos); c) precisamos de uma solidariedade libertadora, com o olhar em Jesus e apreender d’Ele sua força libertadora e renovadora, deixar agir em nós a força do Espírito Santo, que é graça santificante, recebida no Batismo, e agora infundida no Sacramento da Crisma.

O cuidado do Meio Ambiente: “Estas situações provocam os gemidos da irmã terra, que se unem aos gemidos dos abandonados do mundo, com um lamento que reclama de nós outro rumo. Nunca maltratamos e ferimos a nossa casa comum como nos últimos dois séculos. Mas somos chamados a tornar-nos os instrumentos de Deus Pai para que o nosso planeta seja o que Ele sonhou ao criá-lo e corresponda ao seu projeto de paz, beleza e plenitude” (Laudato Si, 53).

Mas, também há riscos de se ter uma espiritualidade voltada somente ao amor solidário, pois, nenhuma motivação será suficiente, se não arde nos corações o fogo do Espírito (Evangelii Gaudium,261), acarretando perda de motivação e o Evangelho não segue adiante. A melhor motivação para se decidir a comunicar o Evangelho é contemplá-lo com amor, é deter-se nas suas páginas e lê-lo com o coração (Evangelii Gaudium, 263), caso contrário não será um processo de evangelização, mas sim, de ativismo com perda de centramento. A quem interessa isto?

c) AUTOCONTROLE (ASCÉTICA): Estimula a disciplina, o esforço pessoal, para cultivar atitudes boas e internalizar hábitos positivos. ‘Por outras palavras, as virtudes organizam-se sempre e necessariamente “in habitu”, embora os condicionamentos possam dificultar as operações desses hábitos virtuosos. Por isso, faz falta “uma pedagogia que introduza a pessoa passo a passo até chegar à plena apropriação do mistério”. Para se chegar a um estado de maturidade, isto é, para que as pessoas sejam capazes de decisões verdadeiramente livres e responsáveis, é preciso dar tempo ao tempo, com uma paciência imensa. Como dizia o Beato Pedro Fabro: “O tempo é o mensageiro de Deus”’ (Evangelii Gaudium, 171).

Da mesma forma a prática do autocontrole, valoriza a vontade e a auto superação. Complementa, neste ponto o Papa Francisco, falando que a “a experiência pessoal de nos deixarmos acompanhar e curar, conseguindo exprimir com plena sinceridade a nossa vida a quem nos acompanha, ensina-nos a ser pacientes e compreensivos com os outros e habilita-nos a encontrar as formas para despertar neles a confiança, a abertura e a vontade de crescer” (Evangelii Gaudium, 172).

Ainda, podemos apontar limites ao autocontrole, como a tendência a formação de pessoas rígidas e intolerantes, pessoas ressentidas, queixosas, sem vida, ou então, o “desafio que hoje se nos apresenta que é de responder adequadamente à sede de Deus de muitas pessoas, para que não tenham de ir apagá-la com propostas alienantes ou com um Jesus Cristo sem carne e sem compromisso com o outro” (Evangelii Gaudium, 89).

Para se evitar tais desvios, o cristão deve sempre retomar a motivação primeira, para se manter o encantamento. Um retorno às fontes e contemplar como viviam os primeiros cristãos no processo de divulgação do Evangelho.

d) VIA DA SABEDORIA: Um novo olhar sobre as coisas, que desenvolve em nós a intuição, cabe aqui ressaltar, principalmente a contribuição da mulher, com sua sensibilidade, sua intuição e certas capacidades peculiares, que só elas possuem. A sabedoria nos faz ser pessoas simples, pois aprendemos das experiências cotidianas, e assim vamos adquirindo conhecimento de vida, e desta forma passamos a descobrir Deus nos diversos espaços do mundo: da tecnologia, da arte, do conhecimento, da beleza, do esporte, que são as lutas pela cidadania. Seria como um buscar Deus em todas as coisas.

Mas, outra vertente desta via, será a descoberta daquilo que nos faz afastar de Deus, são os “ – ismos” que deparamos ao longo da vida: materialismo, ateísmo, hedonismo, subjetivismo, egoísmo que afloram nossas paixões desordenadas, provocando em nós um afastamento da vivência de uma espiritualidade.

Necessitamos das outras dimensões, ou seja, da mística, do amor solidário e do autocontrole, para tornar nossa sabedoria, mais significativa e profunda. E desta forma, podermos responder à pergunta: – Como crescer na opção por Jesus? Só assim, conseguiremos entender que conhecer realmente quer dizer: ser transformado por aquilo que se conhece.

Referência bibliográfica
Dr. Afonso Murad – professor de Teologia da FAJE (MG)