OS ÚLTIMOS PAPAS DE AVINHÃO

Anos de 1305, o arcebispo de Bordéus, Bertrand de Got, eleito Clemente V, julgando solucionar a desavença que opunha o Papado ao rei da França, desejando acertar estas intrigas, antes de seu retorno a Roma. Mas, devido a diplomacia capetíngia (dinastia que governou a França durante mais de 300 anos), o medo do caos italiano e a necessidade de trabalhar no Concílio de Vienne (cujo principal resultado foi o de retirar o apoio papal aos Cavaleiros Templários por estímulo do rei da França, Filipe IV), acabou ficando em Avinhão, onde morreu em 1314, sem nunca ter ido na Itália, morreu no desejo de estar na Cidade Eterna.

O sucedeu o Papa João XXII (1316-1334), que primava pelo não retorno, enquanto a Península estivesse no estado em que se via e, assim, fixara a Cúria na cidade de Avinhão. Os Papas Bento XII, monge cistercience (1334-1342) e Clemente VI, monge beneditino (1342-1352) continuaram sua obra, onde se erguia o imponente castelo edificado por ordem papal. Era a glória de Avinhão, capital provisória da Igreja. Aliás, local pouco confortável: ruas fervilhando de gente e forte comércio e negociações. Os italianos, furiosos por se sentirem viúvos do Pontífice, diziam que Avinhão era “o esgoto do mundo”.

Mas, como os papas que se sucediam eram franceses, não pensavam em voltar à Roma. O Papa Clemente em 1347 canonizou Santo Ivo (1253 – 1293), patrono dos advogados. A 20 de Outubro de 1349 proibiu os “flagelantes” (seita da zona do Reno que emergiu na altura da Peste Negra) e sobreviveu a esta epidemia, primeiro seguindo os conselhos dos seus médicos de se rodear de piras, e depois retirando-se para o campo, perto de Avinhão. Ainda, escreveu a bula  Unigenitus (27 de Janeiro de 1343), para justificar o poder papal e a concessão de indulgências. Este documento foi usado na defesa das indulgências muitos anos depois, quando Martinho Lutero afixou as suas 95 teses em Wittenberg, em 1517.

Ano de 1346, Carlos de Morávia, filho do valoroso João da Boêmia (o rei cego, morreu na guerra dos cem anos), passara a ser o rei Carlos IV e, como imperador respeita os compromissos assumidos com o pontífice, renuncia as investidas sobre à Itália. Mas, com a Guerra dos Cem Anos acontecendo, entre França e Itália, surgirão questionamentos: – Poderia o Papado considerar-se seguro em país francês? – Mas, estaria melhor em terras italianas? Onde o Reino de Nápoles vivia na impotência e os Visconti de Milão eram detestáveis. Os italianos possuíam uma certeza, impedir que um estrangeiro dominasse a Península. Ora, os Papas de Avinhão eram franceses…

Veio o Papa Inocêncio VI, Beneditino (1352-1362), um cardeal limusino, sábio jurisconsulto, bem visto pela corte francesa, mas precocemente envelhecido. No conclave seguinte, novas manobras e êxito dos limusinos, elegem o Papa Urbano V (1362-1370), onde o Papado de Avinhão desmentia os caluniadores que viam naquela cidade uma Sodoma e uma Gomorra. Era um santo monge, sua caridade inesgotável.

Cabe lembrar, até que ponto são caluniosas as teses que fazem dos últimos Papas de Avinhão, colocando-os como simples marionetes da França. A partir de Inocêncio VI e Urbano V, homens de saúde precária, de onde germinam e enraízam a ideia indispensável de retorno a Roma.

Para esta difícil tarefa, um colaborador eficaz: o Cardeal Gil Albornoz, de personalidade poderosa, homem da Igreja, diplomata e guerreiro. Enviado como legado para a Itália, empenhou-se em restabelecer os direitos da autoridade pontifícia e em reconquistar os Estados pontifícios: o patrimônio de São Pedro, o ducado de Spoleto, a Marca de Ancona e a Romagna. Depois, legislando com autoridade, os Estados Pontifícios vigoraram até 1816.

Parecia restar apenas um obstáculo sério ao triunfo do Papado na Itália: a ambição desmedida de Bernabé Visconti, que face aos presentes oferecidos, conseguiu afastar Albornoz.

Mas, os resultados obtidos, não foram suficientes para afastar a intenção do papa retornar a Roma. Ao mesmo tempo, em Avinhão, devido a guerra franco-inglesa, não oferecia segurança suficiente, devido ao surgimento de inúmeros malfeitores em toda a França. O Papa Inocêncio VI mandou construir uma muralha com 4 Km de extensão e como a falta de segurança continuava a época do papa Urbano V, favoreceu a este também. Mas, as muralhas de Avinhão não encerraria o Papa como numa prisão.

O Papa Urbano V anunciou ao Sacro Colégio, seu retorno a Roma. Todos os cardeais não gostaram, mas Urbano não deu ouvidos e conferiu a púrpura ao franciscano Guilherme d’Aigrefeuille, que deixou o Colégio dos Cardeais mais tranquilo e assim o Papa chegaria a Roma no dia 16/10/1367, ou seja, aproximadamente 65 anos depois.

Mas, este regresso fracassou, pois, ao chegar a Itália, Urbano V sentiu-se inquieto e constrangido. Primeiro, ao passar pela cidade de Viterbo, sentiu-se bloqueado por um motim. Segundo, ao chegar em Roma, sentia que estava indo para uma prisão, pela maneira que sua escolta o conduzia. As autoridades da cidade, também não o acolheram bem e ficou num castelo em Montefiascone, acima do lago Bolsena, aproximadamente 120 km, distante de Roma, ao Norte. Depois, criou 8 cardeais, destes 6 eram franceses e toda a Itália se enfureceu. Aconteceram revoltas em Perúgia, liderada pelo mercenário John Hawkwood e na Toscana, liderada por Bernabé Visconti.

O Papa Urbano V regressa a Avinhão, alegando que o Espírito Santo queria seu regresso, mas dois anos antes dissera, que o Espírito Santo o queria na Itália. Tentaram dissuadi-lo de voltar à França: Francesco Petrarca (intelectual, poeta e humanista italiano), o Infante Pedro de Aragão, que depois se fizera franciscano e Santa Brígida da Suécia.

Em Avinhão, em seu castelo à margem do Ródano, as discussões entre Itália e França chega a seu clímax. Os franceses exaltavam seu soberano Carlos V e diziam: “Onde está o Papa, aí está Roma!”. Os italianos invocavam os testemunhos da história, Dante Alighieri escrevia muito, mas sobressai estes versos de Petrarca: “Roma santa, Roma consagrada pelo sangue dos mártires, Roma capital do mundo, esperava o seu hóspede!”. Depois, o enviado do rei da França Ancel Choquard, em discurso ao papa, disse: “Volto para Roma – Para ser lá crucificado de novo”.

Estes tumultos, só foram ouvidos em círculos intelectuais bastante fechados. O povo, estava sensível a sentimentos de se originara de Joaquim de Fiore (abade cisterciense e filósofo místico, defensor do milenarismo e do advento da idade do Espírito Santo). A Igreja contemporânea, manchada por abusos e escândalos, caminhava para o abismo.

No meio desta tempestade de ideias, surge as Revelações de Santa Brígida da Suécia (1302-1373), viúva com oito filhos, que fundara a Ordem do Santo Salvador e se mudara para Roma, tentando a aprovação de sua Ordem, que aconteceu 20 anos depois, três anos antes de sua morte.

Na sua solidão, tinha visões apocalípticas, dizia: Assegurava ter ouvido o próprio Cristo condenar a corte dos papas franceses, a sua cobiça, orgulho e devassidão, e acusa-los de povoarem o inferno. Dizia, que Inocêncio VI era mais abominável que os usurários judeus, mais traidor que Judas, mais cruel que Pilatos, e que o vira rolar no abismo como uma pedra extremamente pesada. Na época que Urbano V, esteve em Roma, Brígida suplicara-lhe que ficasse, mas o Papa voltou e logo depois morreu e Santa Brígida disse: “que a morte do Papa constituía uma prova evidente da cólera de Deus”.

Em 1370, grande preocupação se o novo Papa, a ser eleito no conclave, deveria ou não deixar Avinhão. Tão logo escolhido, o Papa Gregório XI, e impressionado com o que ouviu dos lábios de Santa Brígida, voltou a estudar sobre o retorno a Roma.

Obstáculos numerosos, Bernabé Visconti manobrava ainda contra as terras da Igreja, que não possuía dinheiro para combatê-lo. O novo Papa empenhou as suas joias, tributou o episcopado e recrutou mercenários.

Muita pressão: do Rei da França, dos habitantes de Avinhão, e de cardeais. Mas o Papa anunciou a partida. Mas, novo incidente, faz tudo voltar ao começo. Florença armou um motim, acusando os partidários do pontífice de quererem invadir a Toscana e censurando-os por deixarem morrer de fome a sua população, quando eles próprios tinham os seus celeiros abarrotados.

Gregório XI não era homem para permitir que zombassem dele. Florença foi posta à margem da cristandade. Um homem de ferro, o cardeal Roberto de Genebra, ofereceu-se para ir restabelecer a ordem na Itália, e o papa aceitou. Houve guerra na Península. Os mercenários que o Papado contratara: os bretões de Malestroit e os ingleses de Hawkwood devastaram a Toscana, massacraram todos simpáticos aos florentinos, retomaram as fortalezas, cometendo mil e uma depredações e violências abomináveis. Gregório XI, arriscando tudo, decidiu deixar Avinhão e transferir-se para Roma.

Imaginamos bem esse papa, realmente um homem de fé e dotado da mais alta consciência dos seus deveres de estado. Meditava acerca do que Deus verdadeiramente esperava dele. Como devia hesitar no mais íntimo do seu coração! Ele se sentia responsável diante de Deus. Teria esse homem de boa vontade a vontade suficiente para quebrar todas as suas hesitações e para partir, apesar de tudo, em direção a essa Esposa mística?

Fonte: Rops, D. História da Igreja – Vol. IV – Rei dos Livros, Lisboa, Pt, 1984.

Parte 1: O glorioso retorno

Parte 3: A missão de Santa Catarina de Sena