A missão de Santa Catarina de Sena

Primavera de 1376, aparece em Avinhão “La mantellata” (pois, se vestia de branco, com uma capa negra). Catarina de Sena era uma obscura religiosa, que ousara escrever uma carta ao papa em tom de repreensão, em tom profético, uma mensagem de Cristo. O clero, vê esta freira com insignificância, pois a mesma não falava francês, nem latim, mas simplesmente o toscano das classes baixas.

Catarina de Sena, mulher radiante e cheia de vibração, com ternura inefável e generosidade sem limites, mas severa, rigorosa e implacável. A religiosa de Siena não vivia, portanto, senão da caridade de Cristo. Não havia nela a graça, nem a jovialidade, nem a vivacidade que tornarão uma Teresa de Ávila tão amável, mas apenas a figura de uma combatente. “Eu quero!”, eram as duas palavras que saiam de seus lábios sem cessar.

Catarina, ouvira o chamado de Deus aos seis anos, quando perante seus olhos, abrira-se os céus e avistara a Parusia antecipadamente. Aos sete anos já contemplava o Menino Jesus, devotando-se a Ele com uma energia invencível. Dizia-se que a pequena Catarina, a vigésima quinta filha do Benincasa, tinha visões surpreendentes e que vivia como uma reclusa no quarto mais isolado da casa paterna.

Uma noite, São Domingos apareceu no seu quarto e mostrou-lhe um hábito que ela reconheceu, era o que usavam as Irmãs Hospitalárias da Penitência, que se dedicavam a oração e às obras de caridade. Era o hábito branco, com capuz e um manto negro das mantellata. Depois de um tempo foi admitida na congregação, e dizia: “Fui escolhida e colocada na terra para pôr remédio a um grande escândalo”.

Uma experiência mística com uma atividade prática incessante e eficaz, que confundiam às normas da razão. Catarina, era capaz de se alimentar apenas de hóstias, durante um tempo de 55 dias; dialogava com Cristo em profundidade, e compôs um dos mais preciosos tratados sobre a alma; recebeu a terrível graça dos estigmas, como outrora recebera o Povorello. Gritava em nome de Deus temíveis advertências e entrava em êxtases. Mística, realista e concreta, estava plenamente integrada na sua ação.

Consagra-se ao cuidado dos doentes, dos cancerosos e pestilentos. Não tinha, ainda, 18 anos e já ao seu redor existia um grupo de homens e mulheres de todas as idades e condições, que a seguiam no caminho para Deus. Chamam-na de “dolcíssima mamma”. Neste grupo, lia-se a Divina Comédia, meditavam sobre os místicos e perscrutavam artigos da Suma de São Tomás de Aquino.

Catarina, sente cair sobre seus ombros o peso da cristandade inteira. Na França, no Império e em Avinhão, já havia comentários sobre uma virgem de Siena, estivesse investida por Deus numa missão misteriosa; alguns cardeais suspeitavam da sua ortodoxia. Mas, Catarina, à medida que descobria o mundo, sua angústia aumentava. A Itália, desta época, entregue a mais sangrentas discórdias: cidades contra cidades, partidos contra partidos, guelfos contra gibelinos, na República Florentina; padres eram esfolados vivos, prisioneiro lançado aos cães, condenados à morte eram enterrados vivos de cabeça para baixo. Nesta época, a moral nada ganhava com essas terríveis discórdias. O pior, na própria Igreja, a esposa mística, apresentava os mesmos sintomas, e fora dessa desolação que Cristo falara com Catarina. E, ela dizia: “Ah, morro e não consigo morrer!”

O Papa Gregório XI, tentava dialogar com os florentinos, mas sem sucesso, dizia ele: “Ou abato Florença ou Florença abaterá a Igreja!”

A consciência de Catarina, isto é, a voz de Deus, faz que ela siga em direção a Avinhão para encontrar o Papa. Catarina, que possuía um sentido tão elevado e tão imperioso pela Igreja, um amor profundo ao “doce Cristo na terra”, caminha em direção a Avinhão, investida numa missão mais importante do que qualquer missão diplomática: era verdadeiramente a voz viva da consciência cristã, dessa Igreja dilacerada, conspurcada e crucificada, que ela fora incumbida por Cristo de reconduzir para Ele.

Catarina se encontra com o Papa Gregório XI e diz a ele: Há que reformar à Igreja e estabelecer a paz entre os cristãos, convém pôr fim à longa ausência, a esse exílio em Avinhão, que priva a Cristandade de sua autêntica capital, que é Roma. O passo seguinte seria reunir todos os batizados neste empreendimento legítimo. O papel de Catarina foi bem mais do que um papel político: foi um papel de profeta, um papel de testemunha.

Não te peço que me aconselhes, mas que me dês um sinal da vontade de Deus!”, teria dito Gregório XI a jovem vidente. Que sinal foi esse? A história não conta, mas pelo espírito fica a evidência, pois ela trazia a marca de Cristo na sua carne viva e estigmatizada, o sinal da Paixão Redentora. Catarina, diz que a salvação do mundo há que ser pela dor e pelo sacrifício. A sua missão era lembrar ao mundo o sinal do Sangue, Sangue de Cristo.

Fonte: Rops, D. História da Igreja – Vol. IV – Rei dos Livros, Lisboa, Pt, 1984.

Parte 2: Os últimos papas de Avinhão 

Parte 4: Aparências de força e de prestígio