Aparências de força e de prestígio

Mas, no momento em que o Papa Gregório XI se reinstalava em Roma, a Igreja continuava a apresentar seu aspecto exterior imponente, e seriam necessários olhos perspicazes para enxergar e fechar as fendas que começavam a abalar a Igreja.

O domínio geográfico da cristandade cobria toda a Europa Nórdica, Ocidental, Central e Mediterrânea. O Islamismo estava, na Europa, na Península Ibérica ao redor de Granada. E, o Evangelho ainda muito tímido estava começando a penetrar na Lituânia, graças a Edwiges da Polônia (1373-1399). Na Bulgária, Sérvia e Rússia, prevalecia os cismáticos de Bizâncio.

Existia certamente um perigo: o dos turcos otomanos. Mas, entre a massa dos cristãos, o perigo muçulmano não era avaliado na sua justa medida. Ninguém acreditava que a Ásia pudesse vencer a Europa cristã ou ameaçar a sua existência.

Pareciam numerosos e evidentes os sinais de uma próxima vitória da Cruz, onde missionários e comerciantes ocidentais tinham penetrado havia mais de um século. Na Palestina, o franciscano Rogério de Guérin havia conseguido comprar os lugares santos ao sultão do Egito e construído os conventos de Sião, do Santo Sepulcro, da gruta de Belém.

A implantação do cristianismo na Pérsia, em 1318, onde em Sultanyeh fora erigida uma metrópole por João XX, em benefício do dominicano Franco de Perúgia, e desde então os missionários vinham-se mantendo na região, apesar do despertar do Islão. Na China, via-se os prodigiosos resultados obtidos no início do século por João de Montecorvino, primeiro arcebispo de Pequim. Mas, em 1370, a revolução leva a dinastia Ming ao poder, o papa envia para lá o arcebispo Guilherme de Prato, com doze companheiros. Os novos senhores da China não teriam para com o cristianismo a mesma benevolência dos imperadores mongóis.

O impulso evangélico impelia a cristandade para uma contínua expansão. Capelas, oratórios, igrejas, mosteiros, catedrais, eram os sinais da presença da Igreja nos velhos países da Europa. Inglaterra já tinha 900 conventos: beneditinos, cistercienses, agostinianos, eremitas, franciscanos, dominicanos, carmelitas e outros.

Mal podemos imaginar hoje o poder que esse mundo clerical detinha na época e a influência que exercia. A autoridade da Igreja apoiava-se sobre um verdadeiro exército de clérigos, talvez um décimo da população adulta da época.

O Papa, herdeiro de São Pedro e ungido de Deus, gozava de um imenso prestígio. Após a reforma gregoriana do séc. XI, formuladas por Gregório VII nos seus Dictatus papae, que reconhecia o Papa como Vigário de Cristo, com plenitude de poder, e depois com Inocêncio III, no séc. XIII, cria-se uma verdadeira monarquia pontifícia, uma das mais poderosas do tempo, onde os papas de Avinhão darão o último retoque.

O sucessor de Pedro, surgia como o príncipe e o chefe, como o mestre e o juiz. Como mestre da disciplina, somente ele tinha o direito de promover a reforma que julgava tão necessária. Quem quisesse empreende-la sem ele seria imediatamente fulminado, como acontecera com os franciscanos “espirituais”.

Desde 1265, pela bula Licet Ecclesiarum, Clemente IV proclamara que o Papa, instituído pelo próprio Cristo, dispõe plenamente de todas as funções eclesiásticas. Mais ainda: “a graça-expectativa” permitia nomear um sucessor para um cargo que ainda estava preenchido. O poder laico perdera assim muito terreno diante do poder pontifício.

Ao lado dessa sujeição à hierarquia católica, verificara-se outro fenômeno: a proliferação do fisco pontifício. Desde a primeira metade do século XIII, o Papado preocupara-se com o aumento dos seus recursos, não se contentando com os rendimentos dos Estados da Igreja, com o Óbolo de São Pedro e com o que lhe pagavam os reinos ou estabelecimentos que protegia das Cruzadas: a “décima”. Os serviços comuns prestados pelos prelados: as “anatas”; os benefícios durante a vacância dos titulares: as “vacantes”; herança dos clérigos falecidos: “direitos de despojo”. Os papas de Avinhão, tinham-se esforçado por multiplicar os impostos e taxas. Os resultados desses excessos seriam os mais deploráveis.

O Papa tinha constituído um governo fortemente centralizado. Protelava os concílios – o último fora em 1311, em Vienne, no Dauphiné, para resolver a questão dos Templários.

Titulares de uma autoridade ampliada, autorizadas pelo Papa de Avinhão, transformaram as secretarias que governavam por Chancelaria, com precauções para desencorajar os falsificadores; da Penitenciária, relacionadas com o magistério espiritual; Tribunal da Rota: julgava os processos reservado ao Pontífice Romano; Secretarias de Câmara Apostólica: administravam as finanças e fiscalizavam as constantes viagens dos membros do clero. Era um sistema bem organizado.

O Pontífice, dessa época, considerava a Igreja uma sociedade perfeita, com poderes extensos sobre o mundo laico; o espiritual domina o temporal, “como a alma domina o corpo”, dissera Inocêncio III, porque o Vigário de Cristo tinha nas mãos as duas espadas, uma para reger a Igreja e outra delegada aos príncipes para os negócios da terra, conforme a doutrina de Bonifácio VIII na Unam Sanctam (1302).

O Papa era o único senhor legítimo da monarquia dos batizados. Por isso recusou o Império a Luís de Baviera para dá-lo a Carlos de Morávia, servir de mediador entre a França e a Inglaterra, bem como entre Gênova e Veneza, Catarina de Sena, expressão exata da alma do seu tempo, tinha essa mesma concepção: a de um mundo que estivesse a cargo da Igreja, absorvido e regido por ela. Acreditava no governo sacerdotal e na onipotência do Papa, que era o “doce Cristo sobre a terra”.

Parte 3: A missão de Santa Catarina de Sena

Parte 5: O peso do mundo