O peso do mundo

Em janeiro de 1380, Santa Catarina, encontrando-se em oração numa capela de São Pedro de Roma e num momento de dilacerante lucidez perguntara a si própria, se mesmo o Senhor poderia evitar que a Igreja naufragasse. A visão mística correspondia perfeitamente à realidade. Nesse final de Séc. XIV, os ventos da história sopravam tempestuosamente por toda a parte, e a barca do mundo cristão parecia excessivamente sobrecarregada para poder vencer os perigos.

No plano material, a maré demográfica, tinha se estancado e começava até a baixar. A peste negra, que assolara quase toda a Europa entre 1347 e 1349, causara estragos difíceis de imaginar, aniquilando aldeias inteiras, reduzindo cidades à décima parte de sua população, exterminando um terço dos europeus, e deixando atrás de si um cheiro a cadáveres amontoados. Depois vinha substituí-la a guerra, para continuar por um longo tempo a tarefa de destruição, principalmente na França.

As consequências eram numerosas e graves. O comércio estava arruinado, a economia arquejava, os conventos, vazios, deixavam ruir os seus edifícios juntamente com a sua vida espiritual. Havia um envelhecimento do modo fisiológico da sociedade, que se deve atribuir a queda de qualidade dos homens de primeira linha, e os que existiam não valiam tanto como os da época precedente: no campo das virtudes pessoais, um São Bernardino ou um São Vicente Ferrer não igualarão um São Bernardo ou um São Francisco de Assis. Da mesma maneira não se compara um Martinho V a um Bonifácio VIII, um Eugênio IV a um Inocêncio III. Por todos esses sinais, notava-se um incontestável declínio.

Havia algo mais grave, forças obscuras e temíveis. Um escritor, Engelbert de Amont, profetizava a vinda do Anticristo, determinando os sinais mais importantes: a) o espírito humano se revoltará contra a fé; b) os cristãos se revoltariam contra o Papa; c) os Estados quebrariam a unidade dos batizados. Tais sinais, não eram o fim do mundo, mas o fim de uma sociedade.

Os sintomas destes sinais: crise de autoridade; crise de unidade, e pelo condicionamento das duas, a crise nas almas, nas consciências e nos espíritos. A inteligência afastava-se das suas bases tradicionais: não se discutia ainda a fé propriamente dita, mas as suas relações com a razão e com o conhecimento. Surge uma geração de espíritos seguindo essa linha: na literatura, filosofia, ciência, arte e outras atividades intelectuais que se tornam mais laicas. A unidade interior da consciência medieval, onde a fé e a submissão ao ensino cristão eram um meio de se ligar ao absoluto, estava ameaçada.

A evolução política tendia para a concentração das forças nas mãos dos reis. A cristandade ia ser substituída pelos Estados-nações, que se defrontavam uns com os outros. A grande época dos empreendimentos sob a ação do Papa, estava chegando ao fim.

A instalação da Santa Sé em Avinhão em nada contribuíra para restaurar uma autoridade que os governos, dali por diante, haveriam de considerar complacente com os reis da França.

Outro aspecto mais grave. O renascimento do direito romano tivera como resultado um declínio do direito canônico. Mesmo no interior da Igreja, existiam correntes ideológicas que discutiam as bases tradicionais da sua organização. Com Ockham e Marsílio de Pádua, seus alunos discutiam até o princípio de autoridade do Papa. Pois um papado sem pulso, era necessário fiscalizar. E essa discussão acarretaria uma eleição pontifícia discutida, cujo resultado foi um cisma, que irá trazer dramáticas consequências.

A Igreja tinha atravessado muitas crises, mas esta em meados do século XIV parecia ser a pior. É certo que havia outros sinais, que permitiam esperar que essa crise seria igualmente vencida. Os espirituais e os místicos, em número considerável, esforçavam-se por renovar a alma cristã no seu íntimo. Poderia o cristianismo conservar a influência que exercera sobre a sociedade da época precedente?

Fonte: Rops, D. História da Igreja – Vol. IV – Rei dos Livros, Lisboa, Pt, 1984.

Parte 4: Aparências de força e de prestígio