Que é o Novo Testamento?

Numa primeira compreensão: é a nova e definitiva etapa da História Sagrada estabelecida por Jesus Cristo, que substitui e leva à sua plenitude a Revelação e as realidades do Antigo Testamento.

A promessa de salvação, feita por Deus no paraíso depois da queda dos nossos primeiros pais (Gn 3,15), foi ratificada com uma aliança ao patriarca Abraão (Gn 17) e renovada a Isaac e a Jacó (Gn 26; 28,12-15). Mais tarde, por meio de Moisés, foi selada com o sacrifício de uma das vítimas (Ex 24,1-11). No NT Deus cumpre a promessa ao estabelecer Jesus Cristo, com a sua morte na Cruz, a Nova e Eterna Aliança. A expressão NOVO TESTAMENTO é tirada das próprias palavras de Jesus pronunciadas na Instituição do Sacrifício Eucarístico (Mt 26,28; Mc 14,24; Lc 22,20; 1Cor 11,25). O sacrifício que Cristo oferece na Cruz constitui a Nova e definitiva Aliança, chamada também Novo Pacto ou Novo Testamento.

Uma segunda compreensão: NT, entende-se também, desde o final do séc. II e de modo cada vez mais frequente, a coleção de livros inspirados por Deus, que contém a Revelação plena e definitiva de Jesus Cristo.

Os Livros do Novo Testamento

Compõe-se de 27 livros, todos escritos na segunda metade do século I. Dividem-se em três grupos:

1. Históricos: os quatro Evangelhos e Atos dos Apóstolos;

2. Didáticos: As catorze epístolas de São Paulo e as sete cartas chamadas católicas;

3. Proféticos: Apocalipse de São João.

Jesus Cristo, cumpriu as promessas divinas feitas por meio dos Patriarcas e Profetas da Antiga Aliança, recolhidas também nos livros sagrados da Antiga Aliança. Todo o Antigo Testamento pode chamar-se promessa ou profecia do Novo, e o Novo Testamento cumprimento do Antigo.

Dignidade do Novo Testamento

O Novo Testamento deve ser lido com o respeito e veneração que exigem a sua origem divina e a sua finalidade de salvação (Dei Verbum, 17)

O Novo Testamento contém a Boa Nova, isto é, o Evangelho de Jesus Cristo (Mc 1,1).

Conteúdo doutrinal do Novo Testamento

O AT dá testemunho de Cristo anunciando a sua vinda: tanto os livros históricos como os proféticos e sapienciais são uma profecia de Cristo.

Os Evangelhos referem, com autoridade divina, a sua admirável vida de Jesus entre os homens, as Suas ações e palavras, a Sua Morte redentora e a Sua Ressurreição gloriosa. Por Cristo fomos libertados do pecado, da morte e do poder do demônio, para viver na liberdade da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21). O livro dos Atos dos Apóstolos relata a vinda do Espírito Santo no dia de Pentecostes; sob a Sua ação assistimos à primeira expansão da Igreja entre judeus e gentios. As cartas dos Apóstolos ensinaram-nos como temos de viver a fé cristã nas circunstâncias da nossa vida. Finalmente, o Apocalipse consola-nos nas tribulações, e mantém viva a fortaleza e a esperança da vitória final; a este aspecto consolador une-se o seu caráter profético acerca da segunda vinda de Cristo.

Quando se escreveram os livros do Novo Testamento?

Jesus Cristo não mandou os Apóstolos escrever, mas pregar (Mt 28,19-20). O Espírito ensinava e fortalecia os Apóstolos nesta missão.

Esta tarefa literária durou meio século: aproximadamente desde o ano 50 até ao ano 100 dC. Podemos ver no quadro abaixo, de modo resumido, com algumas ressalvas, quanto a data, autoria e lugar da redação, mas que pode haver o entendimento.

Data de Composição

Escrito canônico

Autor

Lugar da redação

51-52

1 e 2 Ts

Paulo

Corinto

50-55

Primitivo Evangelho aramaico

Mateus

Palestina (?)

50-60

Tg

São Tiago

Jerusalém (?)

54

Gl

Paulo

Éfeso

57 (primavera)

1Cor

Paulo

Éfeso

57 (outono)

2Cor

Paulo

Macedônia

57-58 (inverno)

Rm

Paulo

Corinto

60 (?)

Mc

Marcos

Roma (?)

62 (?)

Fil

Paulo

Roma (Éfeso)

62

Col; Filêmon, Ef

Paulo

Roma

62 (?)

Lc

Lucas

(?)

63 (?)

At

Lucas

Roma (Acaia)

64

1Pd

Pedro

Roma

64 (?)

2Pd

Pedro (?)

Roma(?)

65

1Tm e Tt

Paulo

Macedônia

65 (?)

Hb

Paulo (?)

Roma(?) Atenas(?)

66

2Tm

Paulo

Roma

68-70

Mt

Mateus

(?)

70 (?)

Jd

Judas Tadeu

(?)

85-95

Ap

João

Patmos

95-100

1,2 e 3 Jo

João

Éfeso (?)

98-100

Jo

João

Éfeso (?)

 

Introdução aos Santos Evangelhos

Que são os Evangelhos?

O momento culminante da Revelação divina à humanidade foi o da Encarnação do Filho de Deus, Jesus Cristo (Dei Verbum, 4).

O Novo Testamento começa com quatro livros que têm o mesmo título: EVANGELHO; igualmente inspirados como os restantes livros da Sagrada Escritura, são os mais excelentes de todos eles (Dei Verbum, 4).

Estes quatro livros foram designados com o título de EVANGELHO desde princípios do séc. II. Por exemplo, pelo ano 150, São Justino mártir chama-lhes: “recordações dos Apóstolos” ou “Evangelhos” (Apologia 1,66).

A palavra EVANGELHO, de origem grega euangélion, significa BOA NOTÍCIA. Também se empregava na antiguidade grega para indicar a recompensa que se dava ao portador dessa boa notícia, ou o sacrifício de ação de graças que por ela se oferecia aos deuses.

Os romanos, por seu lado, chamaram EVANGELHOS ao conjunto de benefícios que o imperador Augusto tinha trazido à humanidade. Entre os Judeus o verbo EVANGELIZAR = anunciar o Evangelho, alcança um relevo particular quando se emprega para falar dos tempos messiânicos, em que Deus salvará o povo (ler Is 52,7).

Quando Nosso Senhor, desde o princípio do Seu ministério público, convida a crer no Evangelho, refere-se à boa notícia da chegada do Reino de Deus que Ele anuncia, e que chega com Ele. (Mc 1,14; 13,10).

É certo, que o EVANGELHO que os Apóstolos proclamam é o anúncio da BOA NOTÍCIA, que é o próprio Jesus Cristo.

Só existe, portanto, um EVANGELHO: o pregado pelos Apóstolos que, por sua vez, o receberam de Cristo e que o proclamam com a força do Espírito Santo. Assim, podemos dizer que os quatro primeiros livros do NT se chamam EVANGELHOS, porque neles nos é transmitido o EVANGELHO que pregavam os Apóstolos, os quais o tinham recebido de Cristo.

Conteúdo dos Evangelhos

Ler At 10,37-43. Os Evangelhos narram a vida de Cristo seguindo, em linhas gerais, este esquema do discurso de São Pedro. Jesus, vem instaurar o Reino de Deus (Mt 3,1-4.11; Mc 1,1-13; Lc 3,1-4.13; Jo 1,19-51).

A parte mais ampla dos Evangelhos está dedicada a mostrar-nos como, efetivamente, Jesus passou fazendo o bem: curava os doentes e libertava os possessos do demônio, porque Deus estava com Ele (At 10,38); pregava e realizava milagres com poder divino (At 2,22). Por contraste ia crescendo o ódio das autoridades judaicas contra Ele, ódio que culminaria com sua Paixão e Morte.

Os relatos da paixão do Senhor referem a realidade da Sua Morte e concluem com o testemunho dos discípulos de terem visto Cristo ressuscitado, de terem comido com Ele, escutado as Suas Palavras e tocado o Seu corpo glorioso. Cristo Ressuscitado, antes da Ascensão aos céus, envia os Apóstolos a pregar o Evangelho e a batizar todas as gentes para a remissão dos pecados.

A moderna crítica dos Evangelhos

O Método da História das Formas (MHF) tem suas origens entre os críticos protestantes liberais da Alemanha. Os seus primeiros arautos foram racionalistas e chegaram a conclusões inaceitáveis a fé católica; tal foi o caso de Martin Dibelius, K.L. Schmidt, G. Bertran, M. Albertz, todos da segunda década do século XX. Com o decorrer do tempo, os estudiosos católicos verificaram que o método como tal é aceitável, desde que assumido numa perspectiva que leve em conta os dados da fé; por conseguinte, trocados os parâmetros do racionalismo pelos da fé, o método da história das formas pode ser útil ao entendimento dos Evangelhos. Em consequência, ao lado de uma aplicação liberal e racionalista, existe uma aplicação católica do MHF.

A concepção Racionalista: Começo do séc. XX a Escola (ou Método) da História das Formas (EHF), chamou a atenção para o intervalo entre a pregação oral de Jesus (27-30) e a redação dos Evangelhos (50-100). Nestes dois ou três decênios a transmissão foi feita oralmente, na Palestina, Síria, Ásia Menor, Grécia, Roma… Em cada um destes lugares os pregadores procuravam dar um Sitz im Leben (um lugar, uma ressonância na vivência dos respectivos ouvintes), que a mensagem desse uma resposta adequada aos anseios das populações de cada região. Tais pregações não tinham preocupações históricas, metafísicas, mas apenas aspectos existenciais e concretos do Evangelho.

Os autores da EHF, alegam que a doutrina de Jesus toma feitios novos, distanciando de Sua pregação original. Os Evangelhos, são escritos da pregação dos Apóstolos e relatam uma figura de Jesus, não fiel ao Jesus real. Os racionalistas afirmam, que nos Evangelhos somos informados do que as primeiras gerações de cristãos vivenciaram (Jesus da Fé), e não aquilo que Jesus foi e disse realmente (Jesus da História). Para sabermos o que Jesus foi e fez, sem deturpações, teríamos que eliminar do texto escrito dos Evangelhos os prováveis retoques e acréscimos que foram acrescidos à mensagem inicial.

O pensamento de Bultmann

Em 1912 Rudolf Bultmann, exegeta alemão, iniciou seu magistério na cátedra de NT em Magdeburgo, onde ficou até 1951. Teve que enfrentar um problema existente nas comunidades protestantes: o racionalismo, eliminando dos Evangelhos tudo o que a razão não consegue explicar, esvaziava a pregação (no culto protestante). Bultmann quis restituir-lhe o valor, sem, contudo, abandonar o racionalismo ou sem voltar a dizer que Jesus multiplicou pães, curou leprosos, caminhou sobre as águas…

Adotou o pensamento existencialista de Martin Heidegger, e conservou o conceito luterano de fé fiducial ou fé-confiança (movimento afetivo), fé que renuncia a procurar motivos razoáveis para crer. Lutero foi arauto desta fé. Vejamos, algumas premissas deste pensamento:

1. A Escritura Sagrada, especialmente os Evangelhos, nos apresentam uma narração de episódios do passado que nos interpelam;

2. Em todo homem há um saber existencial a respeito de Deus, vida, felicidade, salvação…

3. Falar de Deus é falar de mim. A ação de Deus na história não pode ser apresentada com objetividade.

4. Nas páginas bíblicas o estudioso moderno encontra a expressão do sentimento religioso de outras pessoas ou dos antigos cristãos.

5. A subjetividade dos antigos cristãos: Segundo Bultmann é mito toda concepção que apresenta o divino como humano, o transcendente como imanente; toda concepção que relaciona acontecimentos deste mundo com seres do além (anjos ou demônios); toda concepção que admite Deus a intervir no mundo, à guisa de um ser deste mundo, por uma ação diretamente verificável. Tais concepções, julga Bultmann, são contrárias ao pensamento científico. Então, a graça, dons do Espírito, Satã e anjos maus é contrário a consciência do homem moderno, que tem que ser sujeito de suas próprias ações.

6. Para Bultmann o NT, apresenta uma linguagem muito mítica, inaceitável para homem de hoje, impregnado de cientificismo. É preciso pois de-mitizar (entmythologisieren).

Fontes:

VV.AA, BÍBLIA SAGRADA, anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra, Ed. Theológica – Braga, Pt, 1984.

Bettencourt,OSB. E.T., ESCOLA MATER ECCLESIAE, Curso de Cristologia – Módulos: 2 e 36.

Bettencourt,OSB. E.T. e Corrêa Lima, M.L., CURSO BÍBLICO, Mater Ecclesiae, Letra Capital, RJ, 2013.