AS ETAPAS DA FORMAÇÃO DOS EVANGELHOS: DA PREGAÇÃO DE JESUS DE NAZARÉ AO TEXTO CANÔNICO

Capítulo 1 – Origem e natureza dos evangelhos sinóticos

I. Introdução

1. Delineamento do estudo dos evangelhos sinóticos

Vamos estudar os textos que sempre tiveram um lugar preferencial na vida da Igreja, tanto no culto oficial como na religiosidade popular. Somente a leitura deles é ouvida em pé, e são considerados os textos mais simples e populares.

Os evangelhos se fundamentam em tradições preexistentes, que recolheram de informações, tais como de perícopes, pequenos trechos literários, blocos literários unitários, onde se acham: seção de controvérsias (Mc 2,1-3,6); de parábolas (Mc 4,1-34); de milagres (Mc 4,35-5,43). Mas, não são critérios meramente biográficos ou históricos que organizam o relato.

Nenhum texto, tem se estudado tanto e tão seriamente como os evangelhos durante os dois últimos séculos. Uma das tarefas do espírito crítico moderno, será interpretar, defender ou combater algo tão pessoal como a fé, que é fenômeno cristão.

2. Os evangelhos

Os quatro evangelhos foram escritos e foram reunidas numa coleção aproximadamente no ano 125. Literalmente significa bom (eu) anúncio (aggelô). A tradição bíblica judaica e a cultura helenística, ambas se entrecruzam no Novo Testamento.

Acontece também no Deutero-Isaías, onde o mensageiro, que vai exercer o seu Reinado na história em favor do povo oprimido na Babilônia. (Is 52,7). Notícia boa, plena de alegria e esperança. Notícia paradoxal e libertadora: paradoxal, por meio da ação do rei pagão Ciro; libertadora, porque é uma ação que vai mudar a situação histórica do povo sofredor. O Livro de Isaías era muito conhecido no tempo de Jesus. A importância desse profeta entre os membros de Qumran. Nos evangelhos, Jesus apresenta sua missão e sua mensagem aludindo às profecias de Isaías.

Euaggelion, é usado com sentido religioso no culto ao imperador romano. O termo evangelho é usado na tradição cristã, em Paulo. O evangelista Marcos, utiliza o termo e Mateus emprega o termo evangelizar em clara referência a Isaías (11,5). Já Lucas, só emprega o termo evangelho nos Atos dos Apóstolos e não emprega no evangelho.

O primeiro autor a chamar evangelhos aos escritos que nós conhecemos foi Justino (†165). É preciso ter cuidado de dizer “Evangelho segundo…”; o evangelho é um, embora transmitido em quatro versões diferentes. O que se encerra no fato de chamar evangelhos a esses textos:

a) É a notícia boa, a presença de Deus humaniza, dá felicidade e alegria.

b) a autêntica boa notícia não vem do poder imperial, mas sim de Jesus Cristo, com sua morte e ressurreição que abre um horizonte inesperado de plenitude.

c) considerando o uso do verbo na tradição judaica, está se afirmando que em Jesus Cristo se realiza a autêntica boa notícia que os profetas teriam vislumbrado.

II. A origem dos evangelhos sinóticos

1. A origem da tradição: Jesus e os discípulos antes da Páscoa

a) A comunidade pré-pascal ao redor de Jesus

O ministério de Jesus centralizava-se em Cafarnaum, que se conjugava com um caráter itinerante. Existia ao redor de Jesus um grupo de discípulos, ouvintes privilegiados de seu ensinamento, enviados a proclamar a própria mensagem do Reino, também existia simpatizantes e pessoas que não abandonaram sua forma normal de vida e que acolhem o anúncio de Jesus. Do ponto de vista histórico, Jesus é mestre e profeta, como mestre se dirigem a ele como rabbi (aramaico) ou didaskalos (grego).

Depois da destruição de Jerusalém no ano 70 surge um judaísmo normativo e mais uniforme, centralizado na Lei, rabbi se transforma num título e surge o rito da ordenação dos rabinos. Consideravam Jesus como Profeta. Ele mesmo se apresentou como tal. As características de Mestre e Profeta não se contrapõem. Tanto nos círculos proféticos do judaísmo como ao redor dos mestres reuniam-se discípulos e formavam-se as tradições.

Os discípulos de Jesus levavam uma vida desinstalada e pobre, não há motivos para considera-los de um nível cultural inferior.

Dibelius observa como se formou as tradições dos padres do deserto no século V, onde na regra de Pacômio exige que se aprenda de memória. Pensemos em tantos movimentos religiosos que rapidamente formaram suas tradições e repetem as máximas de seu fundador, que com frequência veem seu modelo no grupo de Jesus e de seus discípulos.

b) A cultura da memória e da tradição

A pedagogia popular na antiguidade era muito mais conservadora e se fundamentava nas três instituições-chave: a casa paterna; a sinagoga; a escola elementar. O pai em casa tinha a obrigação de transmitir as tradições religiosas do povo a seus filhos, que deveriam aprender de memória.

Havia sinagogas em Nazaré, onde Jesus fora criado. No tempo de Jesus havia sido introduzido um sistema de escolas elementares nas comunidades judaicas (Bet ha-Sefer – Casa do Livro), um dos objetivos propostos era resistir a helenização. O sistema fundamental do ensino era aprender de memória.

Fílon, pressupõe a repetição e a memorização como métodos de ensino. Na escola epicureia, fazia aprender de memória. O sistema de memorização era utilizado também entre os pitagóricos. Para uma aprendizagem desse tipo se requer técnicas mnemônicas, a primeira das quais estudar em voz alta e cantarolando os textos.

A linguagem de Jesus é poética. Jesus reflete a partir de uma experiência pessoal acerca de Deus, não é exegeta da Lei, mas exegeta de Deus, e se expressa em linguagem poética, porque na realidade fala de Deus e Deus ilumina a realidade. O místico é poeta quando expressa a experiência íntima de Deus. A linguagem poética de Jesus, que ela faz uso frequente de diversas formas de paralelismo, recurso fundamental da poesia hebraica. O ensinamento de Jesus revela, com frequência, sua intenção de ser repetido e memorizado.

c) As características próprias da tradição pré-pascal de Jesus

Os mestres judaicos pediam aos discípulos a adesão à Lei. Jesus pede a aceitação do Reino de Deus. Jesus pretende ser o único mestre. A radicalidade exigida pela adesão a Jesus é surpreendente.

O envio dos discípulos antes da Páscoa é um dos dados mais seguros da vida de Jesus. a) sua pregação: anuncia o Reino de Deus; b) prega com radicalidade e desprendimento, que não foram seguidas depois com vigor; c) dirige-se ao povo de Israel.

Os rabinos diziam que um aluno devia responder com as mesmas palavras de seu mestre, de ditos que se encaixam muito bem no anúncio do Reino de Deus (Lc 6,20-21; 10,23-24;12,54-55). O anúncio do Reino estava unido ao apelo à conversão e à penitência, que era transmitido pelo grupo formado por Jesus e os discípulos,

Há seguimento e perseverança, recompensa prometida àqueles que o seguem, atitude de serviço, perdão, confiança no Pai em qualquer circunstância. A tradição das palavras de Jesus está no grupo pré-pascal, concretamente, nas exigências de duas situações típicas: o envio pré-pascal dos discípulos e a vida interna do grupo. Os discípulos, em sua missão pré-pascal, teriam que ser capazes de narrar os atos e as atitudes daquele profeta e mestre cujas palavras proclamavam.

2. A comunidade pós-pascal: a tradição reinterpretadas à luz da experiência pascal

a) Fidelidade e atualização da tradição

Entre a comunidade pré-pascal e a pós-pascal há uma relação de continuidade (mesmo grupo de pessoas) e descontinuidade (são os mesmos, mas que se transformaram pela experiência da ressurreição).

A ressurreição atualiza a tradição recebida. O que interessa é o sentido atual do passado e não sua mera repetição mecânica. Uma tradição que não contenha a atuação presente do ressuscitado, seria letra morta, seria como a tradição rabínica. Mas, se fundamentasse somente na Páscoa e no Pentecostes, e não estivesse vinculada com o Jesus terreno não estaria apoiada na história e não se distinguiria da gnose.

Fatores sociais exigiam a adaptação e a atualização da tradição evangélica, pois, o cristianismo se expande pela costa do Mediterrâneo, Corinto, Éfeso e Antioquia. E os costumes semíticos da Palestina não são iguais àqueles vigentes nos grandes centros helenísticos. É a Tradição viva que se adapta e se atualiza. A comunidade pós-pascal, é uma comunidade organizada ao redor de algumas pessoas legitimadas como testemunhas, é a fidelidade da transmissão.  Paulo a utiliza quando transmite duas tradições importantes, o credo primitivo fundamentado na morte e ressurreição de Jesus (1Cor 15,3) e a instituição da Eucaristia (1Cor 11,23).

b) O recurso à Escritura

Os discípulos eram judeus e tinham, a Bíblia como Palavra de Deus; era fundamental apresentar Jesus à luz da Escritura como seu cumprimento. Todo especialista nos evangelhos tem que ser, pelo menos até certo ponto, um conhecedor do judaísmo.

A Exegese derásica (derás, buscar, investigar), se fundamenta numa série de técnicas para interpretar e atualizar os textos. Os primeiros cristãos abordam o texto bíblico com uma atitude derásica judaica e suas técnicas correspondentes, buscando aí o que ilumina a pessoa e a obra de Jesus.

Jesus mesmo apresentou seu evangelho do Reino de Deus à luz do Dêutero-Isaías e como seu cumprimento. Por essa razão, o relato da paixão está permeado de alusões ao AT. Um passo imprescindível na interpretação de cada texto dos evangelhos é perguntar-se pelo substrato veterotestamentário, observando as técnicas derásicas judaicas e a interpretação do AT no judaísmo intertestamentário.

c) O cultivo das tradições narrativas de Jesus

Depois da Páscoa se torna muito mais clara a importância da pessoa de Jesus e a inseparabilidade entre sua doutrina e sua pessoa. Cabe destaque, a Paixão, talvez o primeiro a ser escrito. A paixão possui trama, isto é, uma conexão causal dos acontecimentos. A trama da paixão devia ter uma função chave para a existência e a organização do relato evangélico em seu conjunto.

d) As diversas atividades da comunidade pós-pascal

A comunidade pós-pascal conserva, reelabora e transmite a tradição evangélica, onde existia a catequese, em primeiro lugar aos judeus e somente depois, aos gentios; depois a pregação missionária.

Mas, a comunidade viu-se envolvida em numerosas controvérsias, devido ao grupos diferentes de cristãos, como o ambiente pagão, autoridades civis e o judaísmo.

A comunidade pós-pascal, praticava os costumes judaicos piedosamente (At 2,46). Mas, também tinha seu próprio culto, centrado na fração do pão (At 2,42). A comunidade pós-pascal, possuía iluminação recíproca entre o texto bíblico e a obra de Jesus,

A interpretação derásica de Jesus que se vão equiparando com a Palavra de Deus. A anámnesis, o cultivo da memória é algo muito característico da vontade religiosa judaica, onde a fé pós-pascal reconhece no ressuscitado o crucificado.

e) A complexidade da tradição: perícopes isoladas e grandes blocos, tradição oral e escrita

Blocos, coleções de perícopes. São temas muito interessante porque nos apresenta teologias distintas que havia nas comunidades mais primitivas; mas é um terreno sumamente hipotético e bastante especializado. Depois, colocar por escrito não supõe o desaparecimento automático da tradição oral, mas ambas coexistiram muito tempo e influenciaram-se reciprocamente.

3. Redação dos evangelhos

Os evangelistas são porta-vozes de suas Igrejas e os evangelhos são livros da Igreja. A Igreja se identifica nestas obras e não em outras.

O trabalho dos evangelistas vem descrito: a) selecionar os dados da tradição oral ou escrita; b) realizar sínteses; c) adaptar a tradição recebida às situações das diversas Igrejas; d) conservar o estilo da proclamação.

III. Natureza dos evangelhos sinóticos

1. Os evangelhos são textos narrativos

A narração é transmitir acontecimentos e experiências históricas. O caráter narrativo está em evidência em Marcos, pois neste Evangelho, as palavras de Jesus são muito mais escassas do que em Mateus e em Lucas. Um elemento literário fundamental da narração é a trama ou intriga. A trama somente é percebida quando se lê um evangelho do início ao fim como uma obra unitária.

A trama narrativa é similar nos três sinóticos e fundamenta-se em alguns personagens (Jesus, discípulos, fariseus, autoridades judaicas, Pilatos, multidão); tem uma introdução, um desenvolvimento e um desenlace. Qual a origem da trama evangélica? – Relato da Paixão.

2. Os evangelhos são narrações teológicas

Os evangelhos não são narrações de pura ficção, nem tampouco crônicas históricas do passado. São narrações teológicas, porque descobrem na vida de Jesus a ação de Deus e o cumprimento do AT.

História passada (é o Jesus de Nazaré, o crucificado), atualização (é o Senhor glorioso) e recurso à Escritura (é o esperado, o prometido, o Filho enviado de Deus) são as três dimensões do relato evangélico.

3. Os evangelhos não são crônicas históricas, mas estão fundamentados na história

Os evangelhos estão fundamentados em dados reais e pretendem transmitir com fidelidade palavras, fatos e acontecimentos da vida de Jesus.

4. A finalidade dos evangelhos

a) O despertar e o fortalecimento da fé nas comunidades cristãs

Os evangelhos são documentos intereclesiais, mas também contém o chamamento à conversão.

b) Fazer da vida de Jesus o paradigma para compreender suas palavras

A característica dos evangelhos é seu caráter narrativo, capaz de desenvolver toda a vida de Jesus até seu final escandaloso.

c) A visão equilibrada e sintética, literária e teologicamente, tanto da pessoa e da obra de Jesus, como do vínculo dos discípulos com ele

As tradições pré-evangélicas tinham seu próprio Gênero literário e sua própria teologia. É daí que se seguiam as formas distintas de entender o vínculo com Jesus, e, portanto, a vida cristã: como participação de seu poder, como aceitação de sua doutrina, como o seguimento de seu destino etc.…

Um exemplo claro é o mencionado Evangelho de Tomé, obra gnóstica do século II, que consiste numa coleção de palavras de Jesus, sem conexões, sem marco narrativo.

5. Pluralidade de evangelhos

Mateus, Marcos e Lucas apresentam grandes semelhanças entre si, mas não são mera cópia uns dos outros. Evangelhos sinóticos, palavra que etimologicamente quer dizer: com uma olhada (syn opsis),

Havia um esforço contínuo de fidelidade e atualização. Até certo ponto se dava um fenômeno similar ao que se deu no povo judeu que também reescrevia sua história: recordemos como o cronista volta a escrever, a partir de sua ótica tardia e sacerdotal, a história narrada pelo deuteronomista alguns séculos antes. Provavelmente, Mateus e Lucas trabalharam sobre o texto de Marcos e o reescreveram, com novos aspectos, em função das necessidades de suas comunidades.

A Igreja sempre aceitou a pluralidade de evangelhos e se opôs às tentativas de ficar com um só ou de realizar um relato, síntese de todos eles.

A pluralidade de textos evangélicos supõe uma riqueza teológica. Por detrás de sua aparente semelhança se escondem teologias e Igrejas distintas. O evangelho tetraforme nos fala da riqueza da pluralidade e, por sua vez, da abertura à comunhão e à unidade: nenhuma versão do evangelho esgota a riqueza de Jesus e de sua mensagem, por isso todas estão abertas, em princípio, a outras versões e interpretações.

6. A leitura vertical e a leitura horizontal dos evangelhos

Dois tipos de leituras, que não são antagônicas, mas complementares.

a) A leitura horizontal ou comparada dos sinóticos

Importante comparar os textos. Deve ser muito cuidadosa e recair sobre o texto e o contexto: 1) Sobre o texto: registrar as semelhanças, as diferenças; 2) Sobre o contexto: Um mesmo texto, se encontra em contextos diferentes (Ex: Mt 18,12-14; Lc 15,4-7). Perceber as diferenças entre eles, captar as diversidades de suas teologias e de suas comunidades.

b) A leitura vertical ou seguida de cada evangelho

Leitura de cada evangelho, do começo até o final, uma leitura que capte seu dinamismo interno e sua unidade. A leitura contínua e bem-feita de um evangelho resulta numa descoberta apaixonante. O texto canônico é um texto narrativo, essa narratividade nos transmite uma experiência / relato de Jesus e solicita uma resposta, que permitam descobrir melhor o fio que percorre toda a obra.

7) Os três níveis de textos dos evangelhos sinóticos

Nos textos dos sinóticos podemos distinguir três níveis.

a) Nível redacional

Atendendo ao contexto, situando-o no conjunto da trama.

b) Nível tradicional

O evangelista redigiu sua obra utilizando tradições existentes em sua Igreja. Ler, na história de uma tradição evangélica, a experiência de fé e seguir o itinerário de fé.

c) Referência histórica

A referência à história está sempre presente, mas a forma de fazê-lo varia muito de um texto para outro. Mas o estudo completo de cada perícope exige a passagem pelos três níveis mencionados. A utilização teológica de uma perícope isolada sempre acaba situando-a no contexto vital da morte e ressurreição de Jesus Cristo, que é o ponto de partida da fé.

HISTÓRIA DA INTERPRETAÇÃO

1. Início do delineamento crítico na interpretação dos evangelhos

O estudo propriamente científico não aparece até o séc. XIX. Os textos, tiveram presentes uma série de questões como: quantos anjos estiveram no túmulo de Jesus, um (Mt e Mc) ou dois (Lc e Jo)? O centurião aborda diretamente a Jesus (Mt 8) ou por meio dos mensageiros (Lc 7).

A reivindicação dos direitos da razão humana em todos os campos, realizada pelo Iluminismo. Aos Evangelhos, o primeiro passo foi dado por H.S. Reimarus, através da obra Das pretensões de Jesus e de seus discípulos (1772). Defende a tese de que Jesus pretendeu ser um Messias político, que queria libertar o povo judeu do jugo dos romanos, tarefa na qual fracassou totalmente. A pessoa de Jesus, tal como é apresentada nos evangelhos, é uma criação dos discípulos.

G. Paulus (1761-1851), pensa que a ressurreição de Jesus não tem nada de maravilhoso, porque, na realidade, ele não estava morto, e foi reanimado pelo frio da pedra.

D.F. Strauss escreveu uma Vida de Jesus (1835), dá uma interpretação mítico-simbólica e vê a vida de Jesus como a expressão de uma ideia ou criação da imaginação.

Todos os autores citados até este momento fazem avaliações ideológicas dos evangelhos. Os trabalhos críticos, no sentido moderno, começam com C.H. Weise e C.G. Wilke, que em 1838 chegaram a um resultado análogo: na base da tradição evangélica há dois documentos, Mc e Q (Marcos e a fonte Quelle). É a origem da Teoria das Duas Fontes. Marcos não é uma síntese de Mateus e Lucas, mas sim o Evangelho mais antigo e de maior valor histórico.

Essa valorização de Marcos muda radicalmente com a obra de W. Wrede (1901), que defende a tese de que Marcos é um relato elaborado por motivos teológicos e não uma narração próxima da realidade.

A Escola liberal dá pouca confiança ao Evangelho de Marcos e prefere fundamentar-se na fonte Quelle. A. Harnack, na sua obra A essência do Cristianismo (1900), apresenta Jesus como um mestre de moral racional e indeterminada.

A Escola Escatológica fundamenta-se tanto em Marcos como na fonte Quelle (Q). A essência do cristianismo não é uma moral, mas uma grande esperança. A. Schweitzer e A. Loisy, são os grandes autores. Loyse: “Jesus anunciou o Reino… e o que surgiu foi a Igreja”.

A Igreja tem um impulso alentador e positivo sobre os estudos bíblicos na encíclica Divino Afflante Spiritu de Pio XII (1943). Depois a Pontíficia Comissão Bíblica, com a instrução Sancta Mater Ecclesia, faz um discernimento positivo dos métodos de exegese científica dos evangelhos, preparando o caminho da Dei Verbum.

2. O problema sinótico

Perícopes da Tríplice Tradição; da Tradição Dupla (Mateus e Lucas) e da Tradição Simples.

Quadro das Concordâncias

Mateus

Marcos

Lucas

330

330

330

178

278

100

230

……

230

330

……

……

……

53

……

……

……

500

 

Ordenação do material que corresponde ao mesmo esquema geral:

Blocos literários

Mateus

Marcos

Lucas

Preparação do Ministério

3,1 – 4,11

1,1 – 13

3,1 – 4,13

Ministério na Galiléia

4,12- 18,35

1,14 – 9,50

4,14 – 9,50

Viagem a Jerusalém

19,1 – 20,34

10,1 – 56

9,51 – 18,43

Paixão e Ressurreição

21 – 28

11 – 16

19 – 24

Cabe observar que junto a essas concordâncias encontramos discordâncias de diversos tipos.

As teorias Sinóticas:

Dependência mútua: J.J. Griesbach (final séc. XVIII)

Mc 1,34 parece sintetizar Mt 8,16 e Lc 4,40. Entre a tradição petrina judeu-cristã, representada por Mateus, e a pagã cristã paulina de Lucas, houve uma solução “católica” de síntese, realizada por Marcos.

O Evangelho Fundamental: G.E. Lessing (Evangelho dos Nazarenos)

J.G, Eichhorn (versão mais matizada e complexa)

C – Escrito fundamental, com tradições de comuns de Marcos, Mateus e Lucas.

C + A – Acrescentou a tradição comum a Mateus e Marcos.

C + B – Acrescentou a tradição comum a Lucas e Marcos.

C + Q – Acrescentou a tradição comum a Mateus e Lucas.

Da união dessas tradições procedem os atuais evangelhos.

Pe. Rolland: Evangelho dos Doze (ED). Essa obra teve duas reelaborações, com materiais diferentes: o Evangelho helenista em Antioquia (H) e o evangelho paulino em Filipos ou Éfeso (P). Além da coleção dos ditos de Jesus, a fonte Q (Quelle), que procede dos círculos dos tementes a Deus, provavelmente de Cesaréia. Mateus mais judaica e a de Lucas mais helenista, mas ambas conhecem a coleção das palavras de Jesus (Q).

Teoria da Tradição Oral: J.G. Herder. Conforme essa teoria, não é preciso recorrer a nenhum tipo de contatos literários. As semelhanças se explicam porque todos dependem da mesma tradição oral, e as diferenças, pelas personalidades dos evangelistas e pelas características de suas comunidades. É insuficiente para explicar o problema sinótico.

Teoria das duas fontes: O precursor dessa teoria é o filósofo F. Schleiermacher. Assim aparece na investigação a fonte Q (Quelle). A outra fonte da qual dependem Mateus, Lucas e Marcos é o “proto-Marcos”. A fonte Q (primeira letra da palavra alemã Quelle = fonte).

3. Passos da exegese segundo o método histórico crítico

Em forma sintética os passos são os seguintes:

- Crítica literária: Busca das fontes escritas para a qual, nos sinóticos, é essencial o recurso à comparação dos textos

- Análise das tradições e dos Gêneros (Crítica da Tradição): Estudo das formas literárias e sua evolução. È o objetivo da Escola da História das Formas (HF)

- Análise da composição (Crítica da Redação): estudo do trabalho redacional dos evangelistas.

- Crítica histórica: Valor histórico dos textos, com critérios de historicidade.

Fonte:  Monasterio, R.A.; Carmona, A.R.; Evangelhos Sinóticos e Atos dos Apóstolos – Ed. Ave Maria – Vol 6, 2012.