Para a espiritualidade inaciana, a ação direta do Criador para com a criatura é um dado fundamental. Deus age pelo Espírito Santo na pessoa imediatamente. Mas, a relação que se estabelece entre o Criador e a criatura é de caráter espiritual. O que o Espírito Santo produz na pessoa: de modo especial a consolação não deixa de ser um fortalecimento espiritual, como um aumento do amor (afeto), da esperança (confiança) e da (certeza interior).

Agindo pelo Espírito Santo, Deus não comunica algo, mas se auto comunica ao ser humano como fonte do amor. Pois, Deus é amor (1Jo 4,8.16). Assim, a auto comunicação de Deus tanto entre nós na história (em Jesus Cristo) como em nós na nossa interioridade (no Espírito Santo) se apresenta e se experimenta fundamentalmente como uma comunicação amorosa.

A pessoa que faz uma experiência de Deus faz uma experiência do amor. Ela se sente profundamente amada, e se vê convidada e impelida a amar. A dimensão do serviço brotará dessa experiência de amor. O serviço é a expressão concreta do amor. O mandamento de Jesus, narrado no Evangelho de João é o amor, que se apresenta fortemente na cena do lava-pés. Este é o único mandamento que o cristão tem e é o único que pode movê-lo de forma gratuita e desinteressada. Inácio de Loyola, sintetiza tudo na conhecida expressão em tudo amar e servir, que é um somatório da experiência espiritual de Deus e seu respectivo desdobramento prático em nossas vidas.

Continua Inácio, nos pedindo o reconhecimento de que tudo o que somos, temos e possuímos é graça, é dom de Deus.

O primeiro, mais fundamental e mais sublime dom é a própria vida. Ninguém dá a si mesmo a existência, mas antes a recebe. Da mesma forma, o mundo é também um dom, que antecipadamente nos é dado para que possamos viver nele e cuidar dele. O reconhecimento destes dons, respondemos na forma de serviço. Inácio, na sua oração, assim se expressa: tudo o que tenho e possuo, vós Senhor, me destes com amor. E, todos os dons que me destes com gratidão vos devolvo, disponde deles segundo tua vontade e dá-me somente o vosso amor e vossa graça, isso me basta, nada mais quero pedir.

Quando se reconhece que tudo o que se tem e possui é dom de Deus, o coração da pessoa se abre para agradecer a Deus por tudo isso, para Ele dispor desses (meus) dons segundo a Sua vontade. A iniciativa parte sempre de Deus mesmo. Inácio concluirá sua oração com a petição de amor e graça. Se alguém pede o amor, na verdade pede o que Deus é. E, se alguém pede a graça, pede que Deus permaneça na sua vida, o envolva, o abrace o conduza.

Todo nosso serviço, toda nossa missão como congregado mariano, só acontecerá numa atitude de agradecimento a Deus pelo que dele recebemos. A autodoação amorosa de Deus a nós é soteriológica, ou seja, visa a nossa salvação. Se a salvação é um dom de Deus, é um doar-se de Deus a nós (a mim, a ti), por isto devemos EM TUDO AMAR E SERVIR!

Eduardo L. Caridade

Fonte: ITAICI, Revista de Espiritualidade Inaciana, nº 106, pg 43-44, texto de Luiz Carlos Sureki,SJ.