A Tentação de Santo Antônio. 1946, óleo sobre tela 89 X 119 cm. Bruxelas: Museu de Arte Moderna Salvador Dalí

Introdução: O inimigo da natureza humana

A tradição judaico-cristã apresenta a vida nesta terra como um “combate espiritual” – Jó 7,1; Ef 6,10-17.

São Bernardo (†1153): “A luta do cristão se dá em uma dupla frente de batalha: contra a ‘carne e o sangue’ e ‘contra os espíritos malignos do mundo invisível’”.

Santo Inácio de Loyola (†1556) recolheu este tema na célebre meditação das “Duas Bandeiras”.

São João da Cruz (†1591), na “Noite Escura”, fala dos inimigos da alma: o mundo, o demônio e a carne.

Em um Congresso Internacional de Espiritualidade Ortodoxa, em Bose (Itália), o patriarca de Moscou, Kirill disse: “No mundo vemos uma luta ininterrupta entre as forças do bem e do mal”.

A fundadora das Damas de Instrução Cristã, Madre Agathe Verhelle (†1838), dizia às suas filhas: “Enquanto estamos na terra, estamos em um campo de batalha, onde nunca dorme o Inimigo”.

“O mortal inimigo da natureza humana é um ser pessoal de natureza puramente espiritual, que foi criado por Deus em estado de graça, e não querendo prestar reverência e obediência a seu Criador e Senhor, foi lançado do céu ao inferno” (Santo Inácio de Loyola – EE 50)

Teólogos atuais dizem: “Satanás não seria um ser pessoal, mas uma figura simbólica do poder do mal” – Mistério da iniquidade.

Em 1980, o parapsicólogo Oscar G. Quevedo denunciava a excessiva importância dada ao diabo ao longo da história da Igreja e pedia urgente mudança de atitude.

O escritor C.S. Lewis (†1963), no seu livro Cartas do Diabo a seu aprendiz, considerava dois erros iguais e opostos: “um não acreditar na existência do diabo; outro, acreditar e nutrir um interesse excessivo e doentio por ele”.

O Cardeal da Cúria Romana, Walter Kasper, nos alerta: “Não a fé no diabo; fé no diabo, só pode ser superstição. No diabo não se pode crer, ao diabo só se pode renunciar”.

Vamos falar de cinco regras, que se referem à influência na nossa vida espiritual do “mortal Inimigo da natureza humana” ou “mau espírito”. Tais regras são válidas e úteis para o discernimento espiritual, tanto para quem acredita no caráter pessoal do diabo, como para quem o considera um símbolo do mal.

 

O inimigo nos anima para o mal…

“O inimigo costuma propor prazeres aparentes às pessoas que vão de pecado mortal em pecado mortal, fazendo-as imaginar deleites e prazeres sensuais” (Santo Inácio de Loyola – EE 314).

Ler Gn 3,4-16

Como explicar que um marido ou uma esposa cristãos caiam em adultério? Como é possível que um padre ou um religioso envergonhe a Igreja, cometendo o crime da pedofilia? Como entender que um profissional de renome, infringindo os mais elementares deveres da ética profissional?

 

… e nos desanima para o bem

“Nas pessoas que vão se purificando… é próprio do mau espírito remorder, entristecer e pôr impedimentos, inquietando com falsas razões para que a pessoa não vá adiante. Enquanto é próprio do bom espírito dar ânimo, forças, inspirações, facilitando e tirando os impedimentos, para a pessoa progredir na prática do bem” (Santo Inácio de Loyola – EE 314).

 

O Inimigo faz-se forte, mas é fraco

Consolação espiritual x Desolação espiritual.

Enfrentar sem medo as tentações do Inimigo, fazendo o diametralmente oposto ao que a tentação lhe insinua – “agir contra a tentação”.

Se a pessoa que se exercita nas coisas espirituais começa a temer e a desanimar quando sofre as tentações, não há animal tão feroz na face da terra como o Inimigo da natureza humana (Santo Inácio de Loyola – EE 325,4-6).

 

O Inimigo age com falsidade e pede segredo

O mal não suporta a luz. Por isso, busca a escuridão, o segredo, a ambiguidade das sombras.

Santo Afonso Maria de Ligório (†1787), experiente moralista, dizia: “Tentação declarada, tentação superada”.

 

O Inimigo ataca pelo ponto mais fraco

O Inimigo da natureza humana nos rodeia, observando todas as nossas virtudes teologais, cardeais e morais. E nos ataca, procurando vencer-nos, onde nos acha mais fracos e necessitados para a salvação eterna (Santo Inácio de Loyola – EE 327,3-4).

Ler 1Pd 5,8-9; Lc 12,39-40

Qual é o meu ponto fraco (aquele pelo qual devo começar a mudar)? E que meios práticos deverei empregar para melhorar nesse ponto?

A intenção não é fomentar os escrúpulos da consciência ou reabrir antigas feridas, nem sempre bem cicatrizadas. Trata-se de tomar consciência das próprias fragilidades, de agradecer a misericórdia de Deus e emendar-se daqui para a frente (Santo Inácio de Loyola – EE 61).

 

Conclusão

Todos os seres humanos, sem exceção, são “tentados pelo mau espírito” e atraídos pelo bom espírito. O próprio Jesus foi tentado – Mt 4,1-11.

Na parábola evangélica do trigo e do joio (Mt 13,24-30), Jesus nos ensina que o bem e o mal coexistem, tanto no nosso coração como na Igreja e na sociedade. À luz da revelação-cristã, em clima de oração e confrontando a nossa caminhada com uma pessoa espiritual, é possível distinguir o bem do mal. É a graça do discernimento.

Ao rezar o Pai-Nosso, reflita na petição: “… E não nos deixe cair em tentação, mas livra-nos do mal. Amém”.

 

Fonte:

ITAICI, Revista de Espiritualidade Inaciana, nº 77 – set/09. Luís Gonzáles-Quevedo,SJ