O Evangelho de Lucas é o que melhor documenta o “Cristo orante”, com a oração do Pai Nosso, onde nos revela justamente esta intimidade de Jesus com seu Pai.

Havia algo de fascinante na oração de Jesus, algo de tão fascinante, que até um dia, os seus discípulos, profundamente tocados pelo fato de O verem, que todas as manhãs e às tardes, se retirava em solidão e se emergia em oração, pediram-Lhe que lhes ensinasse também a rezar. É então que Jesus transmite aquela que se tornou “a oração cristã por excelência”, o “Pai Nosso”.

“Todo o mistério da vida cristã, está resumido aqui, nesta palavra: ter a coragem de chamar Deus com o nome de Pai”. E a Liturgia, quando nos convida a rezar o Pai Nosso na comunidade, utiliza a expressão “ousemos dizer”.

De fato, chamar Deus com o nome de ‘Pai’, de forma alguma é um fato óbvio. O normal, é que usemos “títulos mais elevados, que nos pareçam mais respeitosos à sua transcendência”. Mas, pelo contrário, chama-Lo, apenas de ‘Pai’, nos coloca em relação de confidência com Ele, como uma criança que se dirige ao seu papai, bem sabendo de ser amado e cuidado por ele.

Esta é a grande revolução que o cristianismo imprime na psicologia religiosa do homem. O mistério de Deus, que sempre nos fascina e nos faz sentir pequenos, porém, não causa medo, não nos sufoca, não nos angustia. Esta é uma revolução difícil de acolher em nossa alma humana”.

Assim as narrativas da Ressurreição falam do medo e do estupor das mulheres diante do sepulcro vazio e do anjo. “Mas Jesus nos revela que Deus é um Pai Bom e nos diz: Não tenhais medo!

E este Deus que é um Pai, “que sabe ser somente amor por seus filhos”, encontra grande expressão na Parábola do Pai misericordioso, narrada em Lucas:

“Um Pai que não pune o filho pela sua arrogância e que é capaz até mesmo de confiar a ele a sua parte de herança e deixá-lo ir embora de casa. Deus é Pai, diz Jesus, mas não da maneira humana, porque não existe nenhum pai neste mundo que se comportaria como o protagonista desta parábola. Deus é Pai a sua maneira: bom, indefeso diante do livre arbítrio do homem, capaz somente de declinar o verbo amar”.

E quando o filho pródigo, depois de ter superado tudo, finalmente retorna para casa, “aquele pai não aplica critérios de justiça humana, mas sente, antes de tudo, necessidade de perdoar, e com o seu abraço faz entender ao filho que durante o longo tempo de ausência, ele lhe fez falta, dolorosamente fez falta ao seu amor de Pai”.

“Que mistério insondável é um Deus que nutre este tipo de amor em relação aos seus filhos”!

Talvez por esta razão o apóstolo Paulo não consegue encontrar uma tradução em grego para a palavra ‘abbá’, que Jesus pronunciava em aramaico. Por duas vezes São Paulo fala sobre isto e por duas vezes deixa esta palavra sem tradução, na mesma forma de como saía dos lábios de Jesus, ‘abbá’, uma expressão ainda mais íntima em relação ao ‘pai’, e que alguns traduzem como ‘papai’, ‘papaizinho’.

“O Evangelho de Jesus Cristo nos revela que Deus não pode estar sem nós: Ele nunca será um Deus “sem o homem”; é Ele que não pode estar sem nós, e isto é um grande mistério… Deus não pode ser Deus sem o homem: um grande mistério isto”.

E “mesmo que nos afastemos, sejamos hostis, nos professemos ‘sem Deus’. E esta certeza é ‘a fonte de nossa esperança’, que está em todas as invocações do Pai Nosso”

Quando precisamos de ajuda, Jesus não nos diz para nos resignarmos e fecharmos em nós mesmos, mas ensina-nos a elevar ao Pai do céu uma súplica confiante. “Todas as nossas necessidades, desde as mais evidentes e diárias como a alimentação, a saúde, o trabalho, até à necessidade de sermos perdoados e sustentados contra as tentações, não são uma prova de que estamos abandonados e sozinhos, mas há um Pai Amoroso nos Céus que sempre olha por nós e nunca nos abandona”.

Convido a vocês: pensem em seus problemas e dificuldades e no “Pai que não pode ser sem nós e que nos olha neste momento”.

Papa Francisco – Audiência Geral (7/jun/2017)

Fonte: info@zenit.org