O itinerário da conversão de Inácio trata de um caminho de transformação interior. Não trata de uma teoria, mas de uma experiência vivida ao longo de dezessete meses: sete meses em Loyola e dez meses em Manresa.

Para compreender este itinerário, a pessoa deve ser capaz de observar os dois caminhos que vão acontecendo, simultaneamente, na vida de Inácio.

O primeiro, é o caminho visível, entre Loyola e Manresa, que vai acontecendo, gradativamente, através de exercícios de leituras e outros entretenimentos para ocupar o seu tempo na convalescença que, a princípio, em Loyola, vão alternando seus estados de ânimo interior. Por algum tempo, ocupa-se com leituras da vida de Cristo e da vida dos Santos e, em outros momentos, ocupa-se com assuntos do mundo, em que antes costumava pensar: “De muitas vaidades que se lhe apresentavam , uma se apossara tanto de seu coração, que ficava logo embebido a pensar nela, duas, três, a quatro horas sem perceber” (Aut 6). Em Manresa, estes exercícios são marcados pelas suas sete horas de oração diária e outros exercícios de penitência que ocupavam o tempo do seu dia”.

O segundo, é o caminho invisível, o caminho da graça de Deus agindo. Caminho que só pode ser percebido quando nos abstraímos da lógica racional e penetramos no interior, ponto de confluência do “consciente” e “inconsciente”, acompanhado pelos olhos interiores. Como diz São Paulo em Ef 1,18: “ver com os olhos do coração”. Os olhos interiores captam o conteúdo afetivo-espiritual armazenado no inconsciente. Os olhos interiores possibilitam  a visibilização do invisível, fazendo com que a imaginação penetre cada vez mais no sentido de cada imagem, que, com a ação da graça, é revelada, aceita e integrada. Os olhos interiores possibilitam à pessoa fazer um passeio ao seu interior.

Memórias afetivas, que contém em si as experiências vividas, são ativadas por contextos ou situações similares, que somadas a energia da vida que é força de ação e de interação com as experiências vividas no passado. A situação atual é o ‘dedo’ que toca as situações anteriores. A energia da vida pode ser denominada graça de Deus, que é vida por excelência ou vida em plenitude (cf. Jo 1,1ss).

Os olhos interiores são olhos de luz que possibilitam à pessoa percorrer o caminho da interioridade da própria história. Este processo requer da pessoa muitos exercícios para desenvolver e educar este dom de “ver” com os olhos interiores ou com os olhos da imaginação (EE 47).

A liberação de energia, pode ser captada pelo consciente, no momento da confluência do inconsciente com o consciente. Uma vez captada, a pessoa pode discerni-la, pensá-la, refleti-la e se posicionar. Uma vez compreendida, a pessoa pode tomar a decisão mais apropriada. Este é o caminho que Inácio chama de DISCERNIMENTO.

Os três passos fundamentais para o DISCERNIMENTO são: a) perceber a sensação interior; b) refletir sobre ela; c) decidir favoravelmente.

A sensação interior ativa as motivações inconscientes, que podem provir da ação gratuita de Deus, que é ação do Espírito Santo, bem como das simples motivações afetivas ou da presença do mau espírito. É preciso que toda sensação interior seja discernida.

A reflexão da pessoa acontece a nível consciente e a decisão é tomada a partir daquilo que a reflexão propõe como a melhor a seguir. Sem a pessoa perceber, sem observar a sensação interior e sem trabalhá-la à luz da razão, dificilmente haverá mudança na sua vida.

O DISCERNIMENTO dos dinamismos e das moções internas é o objeto, que com Inácio se ocupa para ordenar os seus afetos desordenados.

A experiência humana de Deus acontece pela união do Espírito de Deus com o humano. É encontro entre o espírito humano e o Espírito de Deus. Deixe o Criador agir diretamente com a criatura, e a criatura com seu Criador e Senhor (EE 15).

O caminho de conversão é um contínuo despertar, pela ação da graça, das moções interiores; passar da auto-suficiência e do voluntarismo para a ação gratuita de Deus, que transforma a vida da pessoa.

A Espiritualidade Inaciana está fundamentada na experiência de transformação interior, do encontro íntimo e profundo do espírito humano com a iniciativa da ação do Espírito de Deus que nos transforma continuamente.

fonte: Schroeder, M.A. EXPERIÊNCIA DE DEUS E LINGUAGEM INTERIOR. Ed. Padre Reus, Porto Alegre, RS, 2007.