III – PARTICIPAR DA PÁSCOA DE CRISTO

O cristão é inserido em Cristo pelo Batismo a fim de tomar parte na morte e na ressurreição de Jesus. O Batismo nos mergulha na morte do Senhor e nos faz sacramentalmente ressuscitar para uma vida nova, conforme Paulo no fala:

  • Rm 6,1-7: ”Então que diremos? Permaneceremos no pecado, para que haja abundância da graça? De modo algum. Nós, que já morremos ao pecado, como poderíamos ainda viver nele? Ou ignorais que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na sua morte pelo batismo para que, como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Pai, assim nós também vivamos uma vida nova. Se fomos feitos o mesmo ser com ele por uma morte semelhante à sua, sê-lo-emos igualmente por uma comum ressurreição. Sabemos que o nosso velho homem foi crucificado com ele, para que seja reduzido à impotência o corpo (outrora) subjugado ao pecado, e já não sejamos escravos do pecado. (Pois quem morreu, libertado está do pecado.)”

A realidade do Batismo é alimentada pela da Eucaristia. Pode-se então dizer que a MORAL está estritamente ligada também à liturgia, pois é a vivência consciente e voluntária dos sacramentos; é o desdobramento do programa de morte ao pecado (e ao velho homem) e da afirmação da nova criatura que o Batismo, a Eucaristia e os demais sacramentos nos impõem.

É isto, aliás, que diferencia a MORAL CATÓLICA da Moral pagã (principalmente a estoica); a Moral não cristã apregoa a auto-afirmação do ser humano mediante o exercício das virtualidades que ele traz em sua natureza; ao contrário, a MORAL CATÓLICA lembra que a natureza humana é fraca e vulnerada pelo pecado, de modo que ela precisa da graça de Deus para se libertar das suas tendências desregradas e harmonizar-se, conforme no diz São Paulo em:

  • Rm 7,14-16.21.24.25: ”Sabemos, de fato, que a lei é espiritual, mas eu sou carnal, vendido ao pecado. Não entendo, absolutamente, o que faço, pois não faço o que quero; faço o que aborreço. E, se faço o que não quero, reconheço que a lei é boa. Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte?… Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor!”

Esta verdades incutem também a necessidade da ascese, isto é, da renúncia para que o cristão possa atingir a sua perfeição espiritual. Não há vida cristã autêntica que não seja carregar a Cruz com Jesus de maneira consciente e voluntária, conforme nos escreve o evangelista São Mateus e complementa o Apóstolo dos gentios:

  • Mt 16,24-26: ”Em seguida, Jesus disse a seus discípulos: Se alguém quiser vir comigo, renuncie-se a si mesmo, tome sua cruz e siga-me. Porque aquele que quiser salvar a sua vida, perdê-la-á; mas aquele que tiver sacrificado a sua vida por minha causa, recobrá-la-á. Que servirá a um homem ganhar o mundo inteiro, se vem a prejudicar a sua vida? Ou que dará um homem em troca de sua vida?…”
  • 2Cor 9,7: ”Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria.”

A cruz configura o cristão a Cristo, e pode contribuir grandemente para amortecer as paixões desordenadas do coração, libertando-o mais e mais para uma vida nova. A preservação do amor pode exigir a renúncia até aos bens mais legítimos, conforme nos fala São Paulo:

  • Rm 14,14-15: ”Sei, estou convencido no Senhor Jesus de que nenhuma coisa é impura em si mesma; somente o é para quem a considera impura. Ora, se por uma questão de comida entristeces o teu irmão, já não vives segundo a caridade. Pela comida não causes a perdição daquele por quem Cristo morreu!”

Da mesma forma o Sermão da Montanha (Mt 5-7), nos diz que o Senhor Deus pode pedir-nos oferta das coisas mais naturais e aparentemente mais inocentes, desde que se tornem ocasião de tropeço na caminhada para o Pai: olho, mão, pé (metaforicamente entendidos) hão de ser amputados se por causa deles corremos o risco de perder o Único Necessário, que é a Vida Eterna, na Casa do Pai, nos atesta o Evangelista São Mateus:

  • Mt 18,8: ”Por isso, se tua mão ou teu pé te fazem cair em pecado, corta-os e lança-os longe de ti: é melhor para ti entrares na vida coxo ou manco que, tendo dois pés e duas mãos, seres lançado no fogo eterno.”

Esta é a radicalidade do EVANGELHO e da MORAL CATÓLICA!

Vê-se, pois, que o Cristianismo não conhece uma Moral leiga; ao contrário, MORAL e RELIGIÃO estão intimamente entrelaçadas, mantendo constante referência a Deus Pai, que nos ama em Cristo.

Fonte: VV.AA. Obediência e Salvação, Instituto Diocesano Missionário dos Servos da Igreja – Diocese de Rio Preto, SP, 1986.