PRÓLOGO (1-5)

São Lucas é o único autor do NT que escreveu um prólogo para a sua obra, semelhante ao que usavam os historiadores profanos. Este prólogo refere-se ao Evangelho de São Lucas como a um primeiro livro. O propósito de São Lucas é descrever as origens e a primeira expansão do cristianismo, efetuados sob o impulso do Espírito Santo, protagonista central do livro.

A dimensão espiritual do livro dos Atos, que constitui uma unidade estreita com o terceiro Evangelho, inflamou a alma das primeiras gerações cristãs, que viram nas suas páginas a crônica do fiel e amoroso atuar divino com o novo Israel.

Guiado pela inspiração divina, São Lucas fundamentou sua obra com citações dos Salmos, Isaías, Amós e Joel. O AT reflete-se com amplitude e é interpretado a partir do cumprimento em Jesus das profecias messiânicas.

São Lucas dedica o livro a Teófilo, como já o fizera com o Evangelho. Teófilo, é um cristão culto de posição social remediada, seu nome significa “Amigo de Deus”. Inclusive, o tempo transcorrido entre a composição de Atos e do terceiro Evangelho não deve ter sido muito longo.

 

1-2: “1Em minha primeira narração, ó Teófilo, contei toda a sequência das ações e dos ensinamentos de Jesus, 2desde o princípio até o dia em que, depois de ter dado pelo Espírito Santo suas instruções aos apóstolos que escolhera, foi arrebatado (ao céu).”

‘Ações e ensinamentos’: sintetiza a obra de Jesus Cristo, já narrada nos Evangelhos. São dois verbos, que descrevem como se dá a Revelação salvadora de Deus. A revelação acontece por meio de ações e palavras. O Senhor proclamou o Reino do Pai com o testemunho da sua vida e com o poder de sua palavra. Todas as nossas debilidades, que procedem do pecado aceitou-as o Senhor, sem ter parte no pecado. Conheceu a fome e a sede, o sono e o cansaço, a tristeza e as lágrimas. Sofreu as dores mais intensas e até os sofrimentos supremos da morte.

As ações redentoras de Jesus – os seus milagres, a sua vida de trabalho e os mistérios da sua Morte, Ressurreição e Ascensão – cuja profundidade e significado só podem ser percebidos pela fé, e, contém estímulo a nossa conduta diária.

 

3-4: “3E a eles se manifestou vivo depois de sua Paixão, com muitas provas, aparecendo-lhes durante quarenta dias e falando das coisas do Reino de Deus. 4E comendo com eles, ordenou-lhes que não se afastassem de Jerusalém, mas que esperassem o cumprimento da promessa de seu Pai, que ouvistes, disse ele, da minha boca;”

Estes versículos recordam brevemente o conteúdo de Lc 24,13-43, onde se narram as aparições de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús e aos Apóstolos reunidos no Cenáculo.

Quarenta dias, possui significado salvífico. São porções do tempo nas quais Deus prepara ou leva a cabo aspectos importantes da sua atividade salvadora. O dilúvio inundou a terra durante quarenta dias (Gn 7,17); os israelitas caminharam durante quarenta anos pelo deserto rumo à terra prometida (Sl 95,10); Moisés permaneceu quarenta dias na montanha do Sinai, para receber a revelação de Deus que continha a Aliança (Ex 24,18); Elias andou quarenta dias e quarenta noites com a força do pão enviado por Deus, até chegar ao seu destino (1Rs 19,8); e Jesus jejuou no deserto durante quarenta dias como preparação a sua vida pública (Mt 4,2).

 

5: “porque João batizou na água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo daqui há poucos dias.”

‘Sereis batizados no Espírito Santo’: por isto este livro é chamado o Evangelho do Espírito Santo, pois, em quase todos os capítulos se fala d’Ele, da sua ação que guia, dirige, anima a vida e as obras da primitiva comunidade cristã. É Ele que inspira São Pedro (At 4,8); que confirma a fé dos discípulos (At 4,31); que sela com sua presença o chamamento dirigido aos gentios (At 10,44-47); que envia Saulo e Barnabé para terras distantes, a abrirem novos caminhos à doutrina de Jesus (At 13,2-4).

 

ASCENSÃO (6-11)

6-8: “6Assim reunidos, eles o interrogavam: Senhor, é porventura agora que ides instaurar o reino de Israel? 7Respondeu-lhes ele: Não vos pertence a vós saber os tempos nem os momentos que o Pai fixou em seu poder, 8mas descerá sobre vós o Espírito Santo e vos dará força; e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judéia e Samaria e até os confins do mundo.”

A pergunta dos Apóstolos indica que ainda pensam numa restauração temporal da dinastia de David. A esperança escatológica no Reino parece reduzir para eles a expectação de um domínio nacional judaico amplo e universal como a diáspora. Mas, é admirável a resposta do Senhor que, cheio de paciência, lhes fala do caráter misterioso do Reino e da sua imprevisível vinda, assim como da necessidade que têm o Espírito Santo para compreenderem adequadamente os ensinamentos que receberam.

No v.8 o autor anuncia o plano do Livro dos Atos: narrar o desenvolvimento da Igreja, que começa em Jerusalém e vai se estender a Judeia, Samaria e até os confins da terra. Repare o esquema geográfico de São Lucas. Se Jerusalém é no terceiro Evangelho o ponto de chegada da vida pública de Jesus – que partiu da Galileia – aqui é o ponto de partida.

A missão dos Apóstolos estende-se ao mundo inteiro. Para além da geografia. Esta era a esperança universal do AT anunciada por Isaías (cf. Is. 2,2-3)

 

9-11: “9Dizendo isso elevou-se da (terra) à vista deles e uma nuvem o ocultou aos seus olhos. 10Enquanto o acompanhavam com seus olhares, vendo-o afastar-se para o céu, eis que lhes apareceram dois homens vestidos de branco, que lhes disseram: 11Homens da Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu.”

A vida de Jesus na terra não se conclui com a sua Morte na Cruz, mas com a Ascensão aos Céus. Este é o último acontecimento, mistério da vida do Senhor na terra. A Ascensão situa-se no termo da existência terrena de Jesus (cf. Lc 24,50-53) e nas origens ada Igreja. A Ascensão desenvolve-se entre o Céu e a terra, onde surge uma ‘nuvem’, que simboliza o próprio céu; a nuvem acompanha as teofanias, as manifestações de Deus, tanto no AT (cf. Ex 13,22) e NT (cf. Lc 9,34s).

A Ascensão do Senhor faz parte dos fatos pelos quais Jesus Cristo nos redime do pecado e nos concede a vida nova da graça. A subida do Senhor ao Céu não é apenas um estímulo para que levantemos o coração, tal como somos convidados a fazer no prefácio da Santa Missa, com o fim de buscar e amar as “coisas lá de cima” (cf. Col 3,1-2). Com a Ascensão culmina a exaltação de Cristo, que já se realiza na Ressurreição, e que constitui, juntamente com a Paixão e Morte, o Mistério Pascal.

Homens vestidos de branco, são Anjos e se referem à Parusia, isto é, a segunda vinda do Senhor como Juiz dos vivos e dos mortos. ‘Porque olham para o céu’: palavras cheias de solicitude, mas não dizem que a segunda vinda está próxima. Apenas, afirmam a certeza de que Jesus virá de novo e que devemos ter confiança, e saber esperar. Não conhecemos “nem o dia, nem a hora” (Mt 25,13).

 

PRIMEIRA PARTE

A IGREJA DE JERUSALÉM (1,12-7,60)

O Colégio Apostólico (1,12-14)

12-14: “12Voltaram eles então para Jerusalém do monte chamado das Oliveiras, que fica perto de Jerusalém, distante uma jornada de sábado. 13Tendo entrado no cenáculo, subiram ao quarto de cima, onde costumavam permanecer. Eram eles: Pedro e João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelador, e Judas, irmão de Tiago. 14Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele.”

São Lucas menciona os Apóstolos, com exceção de Judas Iscariotes. E, vemos aqui, a primeira notícia sobre a vida espiritual e piedosa dos discípulos. Eram assíduos na oração. A oração era então, como hoje, a única arma, o meio mais poderoso para vencer nas batalhas da luta interior.

Aqui, todos são atraídos pela figura de Maria, que ocupa o centro espiritual do local. Está, aqui, sendo apontado a maternidade que a Virgem exerce sobre toda a Igreja. E o Papa Paulo VI (12/11/1964), proclamou solenemente Maria, Mãe da Igreja.

‘Irmãos’: Nos idiomas antigos hebraico, árabe, aramaico etc…, não havia palavras concretas para indicar os graus de parentesco que existem noutros idiomas mais modernos.

 

Eleição de São Matias (1,15-26)

15-23: “15Num daqueles dias, levantou-se Pedro no meio de seus irmãos, na assembleia reunida que constava de umas cento e vinte pessoas, e disse: 16Irmãos, convinha que se cumprisse o que o Espírito Santo predisse na escritura pela boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus. 17Ele era um dos nossos e teve parte no nosso ministério. 18Este homem adquirira um campo com o salário de seu crime. Depois, tombando para a frente, arrebentou-se pelo meio, e todas as suas entranhas se derramaram. 19(Tornou-se este fato conhecido dos habitantes de Jerusalém, de modo que aquele campo foi chamado na língua deles Hacéldama, isto é, Campo de Sangue.) 20Pois está escrito no livro dos Salmos: Fique deserta a sua habitação, e não haja quem nela habite; e ainda mais: Que outro receba o seu cargo (Sl 68,26; 108,8). 21Convém que destes homens que têm estado em nossa companhia todo o tempo em que o Senhor Jesus viveu entre nós, 22a começar do batismo de João até o dia em que do nosso meio foi arrebatado, um deles se torne conosco testemunha de sua Ressurreição. 23Propuseram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome Justo, e Matias.”

Pedro é o Apóstolo vivo e impetuoso a quem Jesus Cristo confiou a custódia da sua grei. Vemo-lo agora exercendo o seu ministério. Os acontecimentos vão propiciar a manifestação gradual do oficio supremo de direção que Cristo lhe confiou. Observe a prudência de Pedro, fala com autoridade de um profeta e não diz: a minha palavra pode bastar, não tem orgulho. O que ele busca, senão a escolha do décimo segundo apóstolo. Pedro, compreendia o ofício apostólico de dirigir, com o compromisso de velar pela saúde espiritual dos seus inferiores. Os discípulos eram cento e vinte e desta multidão Pedro pede um. Propõe a escolha e exerce a autoridade principal, pois lhe foi confiado o cuidado de todos.

Os Apóstolos são as testemunhas por excelência da vida pública de Jesus. Por isto a Igreja é Apostólica, pois os doze certificam com o seu testemunho que Jesus de Nazaré e o Senhor glorificado são a mesma pessoa.

 

24-26: “24E oraram nestes termos: Ó Senhor, que conheces os corações de todos, mostra-nos qual destes dois escolheste 25para tomar neste ministério e apostolado o lugar de Judas que se transviou, para ir para o seu próprio lugar. 26Deitaram sorte e caiu a sorte em Matias, que foi incorporado aos onze apóstolos.”

Aqui, vemos a primeira prece da Igreja, denota a fé dos discípulos na providência de Deus. A comunidade cristã deixa nas mãos de Deus de quem completará o grupo dos doze. Por isto recorrem ao modo tradicional hebraico “sortes”, como um meio de consultar a Deus (cf. 1Sm 14,41s), conforme os levitas faziam. Neste caso recorre-se à sorte porque se pensa que Deus já fez a sua escolha e por conseguinte a manifestará.

São Lucas costuma reservar o termo ‘apóstolos’ para designar os Doze, ou os Onze juntamente com Pedro, sendo este cabeça do Colégio Apostólico. Não chama São Paulo de apóstolo, não porque minimize o seu papel, mas porque reserva aos Doze a função específica de serem as testemunhas da vida terrena do Senhor.

A função principal dos Apóstolos é serem testemunhas da Ressurreição de Jesus (cf. At 1,22). Os Doze desempenham igualmente um papel de direção na Igreja. Os Apóstolos intervêm, fora de Jerusalém, como garantia da unidade interna e externa, que é um distintivo essencial da jovem Igreja de Jerusalém. Depois do Batismo de Cornélio, os Apóstolos examinam com Pedro a situação criada, para compreenderem mais perfeitamente os desígnios de Deus e os pormenores da nova economia salvífica (At 11,1-18).

 

DOCUMENTO 105 DA CNBB

6. O Beato Paulo VI lembra: “A primeira e imediata tarefa do leigo não é a instituição e o desenvolvimento da comunidade eclesial – esse é o papel específico dos pastores – mas sim, no vasto e complicado mundo da política, da realidade social e da economia, como também o da cultura, das ciências e das artes, da vida internacional, dos mass media e, ainda, outras realidades abertas à evangelização, como sejam o amor, a família, a educação das crianças e dos adolescentes, o trabalho profissional e o sofrimento” (EN, 70).

7. “Os leigos também são chamados a participar na ação pastoral da Igreja” (DAp, 211). Pois, a imensa maioria do povo de Deus é constituída de leigos.

8. O leigo não pode substituir o pastor, o pastor não pode substituir os leigos e leigas no que lhes compete por vocação e missão. Então, a ação dos cristãos leigos e leigas não se limita a suplência em caso de emergência na vida da Igreja. Mas, é uma ação específica da “responsabilidade laical que nasce do Batismo e da Confirmação” (EG, 102)