CURA DO COXO DE NASCENÇA (1-10)

1-10: “1Pedro e João iam subindo ao templo para rezar à hora nona. 2Nisto levavam um homem que era coxo de nascença e que punham todos os dias à porta do templo, chamada Formosa, para que pedisse esmolas aos que entravam no templo. 3Quando ele viu que Pedro e João iam entrando no templo, implorou a eles uma esmola. 4Pedro fitou nele os olhos, como também João, e disse: Olha para nós. 5Ele os olhou com atenção esperando receber deles alguma coisa. 6Pedro, porém, disse: Não tenho nem ouro nem prata, mas o que tenho eu te dou: em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda! 7E tomando-o pela mão direita, levantou-o. Imediatamente os pés e os tornozelos se lhe firmaram. De um salto pôs-se de pé e andava. 8Entrou com eles no templo, caminhando, saltando e louvando a Deus. 9Todo o povo o viu andar e louvar a Deus. 10Reconheceram ser o mesmo coxo que se sentava para mendigar à porta Formosa do templo, e encheram-se de espanto e pasmo pelo que lhe tinha acontecido.”

‘Hora nona’, começava pelas 15h e era frequentado por grande número de Judeus. A ‘porta formosa’, hoje não se figura com este nome, mas era a porta de Nicanor ou Coríntia, que se fazia comunicar com o átrio dos gentios e das mulheres. Esta cura, do coxo de nascença, é o primeiro milagre operado pelos Apóstolos. É a graça divina acontecendo.

 

DISCURSO DE SÃO PEDRO NO TEMPLO (11-26)

11-26: “11Como ele se conservava perto de Pedro e João, uma multidão de curiosos afluiu a eles no pórtico chamado Salomão. 12À vista disso, falou Pedro ao povo: Homens de Israel, por que vos admirais assim? Ou por que fitais os olhos em nós, como se por nossa própria virtude ou piedade tivéssemos feito este homem andar? 13O Deus de Abraão, de Isaac, de Jacó, o Deus de nossos pais glorificou seu servo Jesus, que vós entregastes e negastes perante Pilatos, quando este resolvera soltá-lo. 14Mas vós renegastes o Santo e o Justo e pedistes que se vos desse um homicida. 15Matastes o Príncipe da vida, mas Deus o ressuscitou dentre os mortos: disso nós somos testemunhas. 16Em virtude da fé em seu nome foi que esse mesmo nome consolidou este homem, que vedes e conheceis. Foi a fé em Jesus que lhe deu essa cura perfeita, à vista de todos vós. 17Agora, irmãos, sei que o fizestes por ignorância, como também os vossos chefes. 18Deus, porém, assim cumpriu o que já antes anunciara pela boca de todos os profetas: que o seu Cristo devia padecer. 19Arrependei-vos, portanto, e convertei-vos para serem apagados os vossos pecados. 20Virão, assim, da parte do Senhor os tempos de refrigério, e ele enviará aquele que vos é destinado: Cristo Jesus. 21É necessário, porém, que o céu o receba até os tempos da restauração universal, da qual falou Deus outrora pela boca dos seus santos profetas. 22Já dissera Moisés: O Senhor, nosso Deus, vos suscitará dentre vossos irmãos um profeta semelhante a mim: a este ouvireis em tudo o que ele vos disser. 23Todo aquele que não ouvir esse profeta será exterminado do meio do povo (Dt 18,15.19). 24Todos os profetas, que têm falado sucessivamente desde Samuel, anunciaram estes dias. 25Vós sois filhos dos profetas e da aliança que Deus estabeleceu com os nossos pais, quando disse a Abraão: Na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra (Gn 22,18). 26Foi em primeiro lugar para vós que Deus suscitou o seu servo, para vos abençoar, a fim de que cada um se aparte da sua iniqüidade.”

Este segundo discurso de Pedro tem duas partes: 1ª) (vv. 12-16), o Apóstolo explica que o milagre se realizou em nome de Jesus pela fé no seu nome; 2ª) (17-26), move à penitência a multidão reunida, culpada em alguma medida da morte de Jesus.

No v.13, São Pedro identifica Jesus com o Servo de Yahweh, cf. no AT fizera o profeta em Is 52,13-15; no v.14, chama Jesus de ‘Santo’ e ‘Justo’, para facilitar a compreensão dos judeus, que tinham dificuldade em entender que Jesus era o Messias; no v.15, São Pedro recorda a escolha que fizeram por Barrabás (um homicida), ao invés de escolher Jesus (autor da vida), pois queria incutir no seus ouvintes, que através de Jesus, alcança-se a graça; no v.16, fala em ‘nome’, que equivale a ‘Jesus’, para que como a fé do coxo de nascença, vocês judeus devem ter fé neste nome.

Nos vv. 17-18, mostra que o povo judaico agiu por ignorância. Pois, Jesus já havia dito: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). O povo não sabia que Jesus era o Cristo, o Filho de Deus. Deixou-se levar pelos sacerdotes e pelos príncipes do povo; no v.19, há um efeito de compunção, que é um anelo de reparação pelo mal causado. No dia de Pentecostes muitos judeus, movidos pela graça, perguntaram aos Apóstolos que deviam fazer para reparar o crime cometido. Também nesta ocasião São Pedro os move a uma mudança de vida sincera e eficaz orientada para Deus; no v.20, refrigério, refere-se à parusia ou segunda vinda de Cristo e nos vv. 20-24, São Pedro deseja demonstrar que em Jesus se cumprem as profecias do AT, por ser descendente de Davi (At 2,30), pela sua condição de profeta (Dt 18,15), pelos sofrimentos (At 2,23), pela sua função de pedra angular (At 4,11) e pela sua Ressurreição e exaltação à direita do Pai (At 2,25-34).

 

PRISÃO DE PEDRO E JOÃO (1-4)

1-4: “1Enquanto eles falavam ao povo, vieram os sacerdotes, o chefe do templo e os saduceus, 2contrariados porque ensinavam ao povo e anunciavam, na pessoa de Jesus, a ressurreição dos mortos. 3Prenderam-nos e os meteram no cárcere até o outro dia, pois já era tarde. 4Muitos, porém, dos que tinham ouvido a pregação creram; e o número dos fiéis elevou-se a mais ou menos cinco mil.”

São Lucas narra neste capítulo o primeiro conflito dos Apóstolos com as autoridades de Jerusalém, devido ao entusiasmo da multidão que se tinha congregado à volta de São Pedro por ocasião da cura do coxo.

Saduceus: Setor religioso menor que o dos fariseus, mas contavam com pessoas influentes à época, sobretudo nas grandes famílias sacerdotais. Aceitavam a Lei escrita, mas, em contraposição aos fariseus, rejeitavam as tradições orais, e também não aceitavam algumas verdades importantes como a ressurreição dos mortos. Em matéria política, aceitaram facilmente as condições dos invasores e permitiram a introdução no país de costumes pagãos. A sua oposição a Jesus ainda foi mais radical que a dos fariseus.

 

DECLARAÇÃO PERANTE O SINÉDRIO (5-22)

5-22: “5No dia seguinte reuniram-se em Jerusalém os chefes do povo, os anciãos, os escribas, 6com Anás, sumo sacerdote, Caifás, João, Alexandre e todos os que eram da linhagem pontifical. 7Colocando-os no meio, perguntaram: Com que poder ou em que nome fizestes isso? 8Então Pedro, cheio do Espírito Santo, respondeu-lhes: Chefes do povo e anciãos, ouvi-me: 9se hoje somos interrogados a respeito do benefício feito a um enfermo, e em que nome foi ele curado, 10ficai sabendo todos vós e todo o povo de Israel: foi em nome de Jesus Cristo Nazareno, que vós crucificastes, mas que Deus ressuscitou dos mortos. Por ele é que esse homem se acha são, em pé, diante de vós. 11Esse Jesus, pedra que foi desprezada por vós, edificadores, tornou-se a pedra angular. 12Em nenhum outro há salvação, porque debaixo do céu nenhum outro nome foi dado aos homens, pelo qual devamos ser salvos. 13Vendo eles a coragem de Pedro e de João, e considerando que eram homens sem estudo e sem instrução, admiravam-se. Reconheciam-nos como companheiros de Jesus. 14Mas vendo com eles o homem que tinha sido curado, não puderam replicar. 15Mandaram que se retirassem da sala do conselho, e conferenciaram entre si: 16Que faremos destes homens? Porquanto o milagre por eles feito se tornou conhecido de todos os habitantes de Jerusalém, e não o podemos negar. 17Todavia, para que esta notícia não se divulgue mais entre o povo, proibamos com ameaças, que no futuro falem a alguém nesse nome. 18Chamaram-nos e ordenaram-lhes que absolutamente não falassem nem ensinassem em nome de Jesus. 19Responderam-lhes Pedro e João: Julgai-o vós mesmos se é justo diante de Deus obedecermos a vós mais do que a Deus. 20Não podemos deixar de falar das coisas que temos visto e ouvido. 21Eles então, ameaçando-os de novo, soltaram-nos, não achando pretexto para os castigar por causa do povo, porque todos glorificavam a Deus pelo que tinha acontecido. 22Pois já passava dos 40 anos o homem em quem se realizara essa cura milagrosa.”

Vv. 5-7: Os três grupos assinalados constituem o grande Sinédrio, o mesmo tribunal que pouco antes tinha julgado e condenado o Senhor; vv. 8-12: a segurança e a alegria que manifestam os Apóstolos é impressionante, assim como a liberdade e audácia com que afirmam: “Não podemos deixar de dizer o que vimos e ouvimos”. Nestes primeiros momentos do cristianismo, torna-se realidade a predição de Jesus: “Acautelai-vos, porém, dos homens, pois hão de entregar-vos aos sinédrios” (cf. Mt 10,17-20). “Deus ressuscitou dos mortos”, São Pedro volta a dar testemunho da Ressurreição, verdade central da pregação apostólica e repete com as mesmas palavras de Pentecostes.

13: Os membros do Sinédrio assombraram-se com razão da segurança de São Pedro, e do emprego que homens pouco versados na Lei hebraica fazem da Sagrada Escritura; vv. 18-20: Pedro e os Apóstolos diante o Sinédrio. Têm plena e absoluta certeza de que o próprio Deus falou em Cristo, e falou definitivamente com a sua Cruz e Ressurreição.

 

AÇÃO DE GRAÇAS E ORAÇÃO DA IGREJA (23-31)

23-31: “23Postos em liberdade, voltaram aos seus irmãos e referiram tudo quanto lhes tinham dito os sumos sacerdotes e os anciãos. 24Ao ouvirem isso, levantaram unânimes a voz a Deus e disseram: Senhor, vós que fizestes o céu, a terra, o mar e tudo o que neles há. 25Vós que, pelo Espírito Santo, pela boca de nosso pai Davi, vosso servo, dissestes: Por que se agitam as nações, e imaginam os povos coisas vãs? 26Levantam-se os reis da terra, e os príncipes se reúnem em conselho contra o Senhor e contra o seu Cristo (Sl 2,1s.). 27Pois na verdade se uniram nesta cidade contra o vosso santo servo Jesus, que ungistes, Herodes e Pôncio Pilatos com as nações e com o povo de Israel, 28para executarem o que a vossa mão e o vosso conselho predeterminaram que se fizesse. 29Agora, pois, Senhor, olhai para as suas ameaças e concedei aos vossos servos que com todo o desassombro anunciem a vossa palavra. 30Estendei a vossa mão para que se realizem curas, milagres e prodígios pelo nome de Jesus, vosso santo servo! 31Mal acabavam de rezar, tremeu o lugar onde estavam reunidos. E todos ficaram cheios do Espírito Santo e anunciaram com intrepidez a palavra de Deus.”

Esta prece dos Apóstolos e da comunidade é para os cristãos um modelo de oração e de confiança nos meios sobrenaturais. A oração inclui alguns versículos do Sl 2, cujas predições se cumprem em Jesus Cristo. No v. 31: O Espírito Santo quis dar um sinal externo da sua presença, para animar a Igreja nascente.

 

VIDA DOS PRIMEIROS CRISTÃOS (32-37)

32-37: “32A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém dizia que eram suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era comum. 33Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça. 34Nem havia entre eles nenhum necessitado, porque todos os que possuíam terras e casas vendiam-nas, 35e traziam o preço do que tinham vendido e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Repartia-se então a cada um deles conforme a sua necessidade. 36Assim José (a quem os apóstolos deram o sobrenome de Barnabé que quer dizer Filho da Consolação), levita natural de Chipre, possuía um campo. 37Vendeu-o e trouxe o valor dele e depositou aos pés dos apóstolos.”

Eis um novo resumo da vida da primeira comunidade cristã, que, presidida por Pedro e pelos outros Apóstolos, era a Igreja. Em Jerusalém, encontrava-se então, à maneira de planta nova, a Igreja de Deus na terra. O v.32: o texto insiste na unidade, que é uma virtude dos bons cristãos e uma nota da Igreja. A unidade da Igreja, cujo princípio vital é o Espírito Santo, tem como fator principal a Santíssima Eucaristia que consolida incessantemente, de maneira misteriosa, mas real, o corpo místico do Senhor.

Os vv. 34-35: O desprendimento dos discípulos não denota só solicitude para com os necessitados. O texto sugere que os cristãos de Jerusalém mantenham um sistema organizado de assistência material aos pobres da comunidade. E, os vv. 36-37: Menciona-se Barnabé pela sua generosidade e porque vai desempenhar um papel destacado na difusão do Evangelho.

 

DOCUMENTO 105 DA CNBB

I – O cristão leigo, sujeito na Igreja e no mundo: Esperanças e angústias

13. “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,13-14), assim Jesus definiu seus discípulos e a missão que a eles conferiu. Sua missão é sair de si, iluminar, se doar, dar sabor e se dissolver.

14. A necessidade de pertença a uma comunidade de fé, na qual se alimenta da Palavra de Deus.

15. O mundo e a história da humanidade são o grande campo da ação do amor de Deus.

16. Enquanto sujeito, todo cristão é convidado a apreciar a beleza e a bondade radicais do mundo.

 

I.1 – Marco histórico-eclesial (17-22)

50 anos de encerramento do Concílio Vaticano II; Chistifidelis Laici (1988); Medellín (1968); Puebla (1979); Santo Domingo (1992); Aparecida (2007); Missão e Ministérios dos Cristãos Leigo e Leigas (CNBB, Doc. 62); Evangelli Gaudium, onde todo o povo de Deus saia para evangelizar; Ano Santo da Misericórdia (08/12/2015 a 20/11/2016).

I.2 – Avanços e recuos (23)

Avanços: (24-37)

Ação evangelizadora; criação do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB); ministério de teólogos, retiros espirituais; Comunidades Eclesiais de Base (CEB); crescimento da consciência missionária; percebe-se com esperança a presença dos leigos em várias frentes; cuidado com o nascituro, idosos, doentes, migrantes; dinamismo na Pastoral do Dízimo, abolição da venda de bebida alcoólica; sentido de comunhão leigos, pastores, comunidades, pastorais, diocese; ações leiga no meio da sociedade; leigos comprometidos com movimentos sociais; a mística da proximidade, a pedagogia do diálogo e o perfil mariano de Igreja

Recuos: (38-50)

Indiferenças; omissão a sua ação nas estruturas do mundo; ação na realidade do mundo; grupos de elite, católicos iluminados, tradicionalismo, mundanidade espiritual; preconceitos; devocionismo e clericalismo; ecumenismo e o diálogo inter-religioso pouco avançam; desconhecimento, desinformação e oposição às comunidades eclesiais; resistência à opção pelos pobres; amadorismo em relação à preparação e formação de lideranças; quinze “doenças curiais”; conversão ecológica e analfabetismo bíblico; neopelagianismo presente na Igreja

Rostos do laicato: (51-62)

Reconhecer os diferentes rostos dos cristãos leigos e leigas, irmãos e corresponsáveis na evangelização; cuidar da Igreja doméstica; infância missionária; presença feminina; opção preferencial pelos jovens; respeito, admiração, gratidão e atenção aos idosos; solteiro também é opção de vida; viúvos e viúvas; o ministério de coordenação e de liderança é um verdadeiro lava-pés; somos chamados ao serviço, onde a mentalidade de privilégio não corresponde ao Evangelho de Cristo; aqueles que oferecem suas vidas nas missões além fronteiras, atuam nas pastorais, movimentos sociais, ONGs, partidos políticos, sindicatos, Conselhos de Políticas Públicas, “são homens e mulheres da Igreja no coração do mundo” (Evangelli Nuntiandi, 70).