GÊNERO LITERÁRIO

O Concílio Vaticano II, em continuidade com o ensino do Papa Pio XII[1], recorda que para conhecer o que querem dizer os autores sagrados, há que ter em conta, entre outras coisas, os gêneros literários, ou seja, que tipo de obra quer escrever – histórica, profética, poética etc… – e que formas de dizer empregam segundo o seu tempo e cultura[2].

Este princípio será aplicado especialmente ao Apocalipse, pela peculiaridade do livro e da linguagem que emprega, tão longe de nossa mentalidade. Com efeito, durante os dois séculos anteriores e posteriores a Cristo surgiu bastantes escritos, judaicos e cristãos, que tinham como título “Apocalipse” (Revelação: cujo conteúdo e forma correspondiam ao que hoje se chama “gênero apocalíptico”). Como exemplo: Livros de Henoc, Apocalipses de Moisés (que os hereges atribuíam a São Paulo), e outros, incluídos entre os Apócrifos do Antigo ou do Novo Testamento.

Este livro tem fundamentalmente dois traços comuns:

  1. O tema dos últimos tempos, quando triunfará o bem e será aniquilado o mal;
  2. O recurso a simbolismos do reino animal, da astrologia, de expressões numéricas etc…, para descrever a história passada e presente, projetando-os ao mesmo tempo para os tempos finais.

Pelo conteúdo e pela forma estas obras aparecem como uma derivação tardia da literatura profética, pois os profetas anunciavam o “dia de Yahweh[3] e empregavam imagens simbólicas para expressar a sua mensagem[4].

Alguns trechos de livros do Antigo Testamento têm já um matiz marcadamente apocalíptica, como Is 24-27, Zc 9-14, e, sobretudo, o livro de Daniel, que é claro precursor dos apocalipses. Por outro lado, essa literatura apocalíptica está também influenciada pelos livros sapienciais. As visões misturam-se com recomendações de ordem moral, com convites à reflexão e promessas de bem-aventurança ou castigos futuros.

Em confronto com os profetas, os autores de apocalipses apresentam outras características peculiares:

  1. Empregam pseudônimos para as suas obras, recorrendo a personagens célebres que tivessem podido receber revelações divinas, como Henoc que segundo Gên 5,24 foi arrebatado ao céu sem morrer, “Henoc andou com Deus e desapareceu, porque Deus o levou”;
  2. Em geral, consideram este mundo sujeito ao poder de Satã, sem possibilidade de regeneração, pelo que põem a sua esperança num mundo novo que Deus criará, sem que o homem mal possa contribuir muito mais do que com a sua oração;
  3. Apresentam uma forte tendência determinista ao considerar que tudo está já escrito nos livros e fica, portanto, muito pouco lugar para a liberdade e conversão.

A obra de São João, contudo, apesar de ter como título “Apocalipse”, parece-se mais nos seus traços fundamentais com os Profetas do que como os “apocalípticos”. Com efeito ele próprio considera o seu livro como “profecia”.

Ap 1,3: Feliz o leitor e os ouvintes se observarem as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo.

E mesmo empregando normalmente uma linguagem e alguns simbolismos semelhantes aos apocalípticos judaicos, a sua mensagem apresenta uma dimensão diferente: a que adquire a história humana sob a soberania de Cristo, reconhecida e celebrada na Igreja, novo povo de Deus, que no presente sofre, como o seu Senhor, a perseguição por parte das forças do mal. Mas o desenlace final já foi desvelado na Ressurreição e Ascensão de Cristo, e está a preparar-se ao longo da história mediante a santidade, as boas obras e o sofrimento dos justos. No fim chegará o triunfo definitivo de Cristo e a exaltação da Igreja num mundo novo onde já não haverá pranto nem dor, cf. Ap 21,4: “Enxugará toda lágrima de seus olhos e já não haverá morte, nem luto, nem grito, nem dor, porque passou a primeira condição”, e em que terão parte todos aqueles que queiram converter-se, cf. Ap 16,11: “Amaldiçoaram o Deus do céu por causa de seus sofrimentos e das suas feridas, sem se arrependerem dos seus atos”.

O Apocalipse de São João apresenta assim um forte apelo à conversão, à urgência de um compromisso com o bem e ao otimismo da confiança no poder de Deus, traços que já tinham os oráculos dos Profetas. Como outros “apocalipses”, é um livro de consolação, surgido num período de dificuldades extraordinárias; mas ao mesmo tempo representa um estímulo à santidade de vida e a fidelidade a Jesus Cristo, válido em todos os tempos. O aspecto sapiencial e didático fica refletido ao longo do livro, mas especialmente nos traços de gênero epistolar que aparecem ao princípio e no fim, cf. Ap 1,1-3: “1Revelação de Jesus Cristo, que lhe foi confiada por Deus para manifestar aos seus servos o que deve acontecer em breve. Ele, por sua vez, por intermédio de seu anjo, comunicou ao seu servo João, 2o qual atesta, como palavra de Deus, o testemunho de Jesus Cristo e tudo o que viu. 3Feliz o leitor e os ouvintes se observarem as coisas nela escritas, porque o tempo está próximo“.

Ap 22,21: “A graça do Senhor Jesus esteja com todos”.

Referência Bibliográfica:

VV.AA. BÍBLIA SAGRADA, Universidade de Navarra, Edições Theologica, Braga, PT, 1990;

[1] Cf. Pio XII Enc. Divino afflante Spiritu, EB 558.

[2] Dei Verbum, 12.

[3] Cf. Am 5,18-20; Is 2,6-21; Jer 30,5-7; Jl 2,1-17; etc…

[4] Cf Am 7,1-8,3; Os 13,7-8; Jl 2,10-11; Ez 1-2; etc…