AMBIENTAÇÃO HISTÓRICA

É conveniente conhecer as circunstâncias históricas em que foi escrito o Apocalipse. A penetração cristã na Ásia Menor tinha começado muito cedo, quiçá por meio daqueles judeus procedentes da Ásia que estavam presentes no dia do Pentecostes em Jerusalém: At 2,9: “Partos, medos, elamitas; os que habitam a Macedônia, a Judéia, a Capadócia, o Ponto, a Ásia”.

Quando São Paulo chegou a Éfeso encontrou ali alguns seguidores de Cristo: At 19,1: “Enquanto Apolo estava em Corinto, Paulo atravessou as províncias superiores e chegou a Éfeso, onde achou alguns discípulos e indagou deles”.

De qualquer forma, até os anos 53-56, depois da pregação do Apóstolo dos Gentios, não se pode falar de verdadeiras comunidades cristãs que formassem algumas Igrejas locais. Estas foram se desenvolvendo, e muito depressa surgiram alguns rebentos de cizânia no meio do bom trigo semeado. A estas circunstâncias há de acrescentar o começo das perseguições.

Por outro lado, tinha-se consumado a ruptura com a sinagoga, e alguns judeus tratavam de semear o desconcerto: Ap 2,9: “Eu conheço a tua angústia e a tua pobreza – ainda que sejas rico – e também as difamações daqueles que se dizem judeus e não o são; são apenas uma sinagoga de Satanás”; 

Ap 3,9: “Eu te entrego adeptos da sinagoga de Satanás, desses que se dizem judeus, e não o são, mas mentem. Eis que os farei vir prostrar-se aos teus pés e reconhecerão que eu te amo”.

Existia, além disso, o perigo do sincretismo, dada as influências que no Império Romano tinham as religiões orientais. Não longe das Igrejas mencionadas no Apocalipse estava a Frígia, centro dos cultos a Cibele e Attis. Alguns dos seus ritos mistéricos refletem de certo modo nos pecados denunciados por São João: Ap 13,11-13: 11Vi depois surgir da terra outra Fera; tinha dois chifres como um cordeiro, mas falava como um Dragão. 12Está a serviço da primeira Fera: estabelece por toda a parte a autoridade desta, fazendo a terra e seus habitantes adorar a primeira Fera, cuja ferida mortal fora curada.13Ela realiza prodígios admiráveis: chega a fazer descer fogo do céu sobre a terra à vista de todos. 

Para conhecer o contexto histórico da época, há que considerar as perseguições de Roma contra o cristianismo. À medida que foi adquirindo força o culto divino aos imperadores, os cristãos iam encontrando mais dificuldades para ser fiéis à sua fé. Quando o imperador Domiciano (anos 81-96) subiu ao trono, as circunstâncias adversas pioraram, pois este déspota exigia honras divinas sob a pena capital.

Das sete Igrejas às quais São João escreve, só de duas temos notícias de que se prestasse então culto ao Imperador: Tiatira e Laodiceia. Mas Éfeso, além do seu importante culto imperial, tinha um templo famoso dedicado à deusa Artemisa: At 19,28: “Estas palavras encheram-nos de ira e puseram-se a gritar: Viva a Ártemis dos efésios”!

Em Esmirna, São Policarpo ainda sofrerá o martírio pelo ano 156, por se negar a confessar o César como Kýrios, Senhor. Em Pérgamo também foi martirizado a “testemunha fiel” Antipas: Ap 2,13: “Sei onde habitas: aí se acha o trono de Satanás. Mas tu te apegas firmemente ao meu nome e não renegaste a minha fé, mesmo naqueles dias em que minha fiel testemunha Antipas foi morto entre vós, onde Satanás habita”.

À medida que passava o tempo, o cristianismo se difundia, mas, simultaneamente crescia a aversão e a violência contra os cristãos. São João sofre diante dessa situação, e iluminado pelo Espírito Santo, trata de fazer compreender aos fiéis que, no fim, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, triunfará para sempre sobre os seus inimigos. Entretanto, trava-se a grande luta, em que os cristãos de todos os tempos estão implicados. Nessa guerra com freqüência torna-se vencedor o inimigo, mas o seu triunfo é transitório, aparente. Na realidade acontece tudo ao contrário: naquilo em que o cristão parece ser abatido, no seu martírio e sofrimento, nisso mesmo vence e triunfa.

O cristianismo colidiu com o Estado e com a religião do Estado; o culto a Cristo colidiu com o culto imperial. No interesse da fé, o Apocalipse ergue viva oposição a Roma e ao culto imperial. Isso corresponde à situação vigente sob o governo de Domiciano.

Antes de Domiciano, a religião do Estado não investiu diretamente contra os cristãos. Os atos loucos de Nero em Roma, ao agredir os cristãos e sacrificá-los, nada têm a ver com o culto imperial. Sob Domiciano, que segundo os padrões orientais reclamou honras divinas para si como imperador durante toda a sua vida: “Dominus ac deus noster“, desencadeou-se pela primeira vez a perseguição aos cristãos, promovida pelo Estado e com bases religiosas. Em 96, em Roma, membros da corte imperial foram chamados à ordem sob acusação de atheótes, isto é, de violação da religião do Estado. E, na tradição cristã, Domiciano é unanimemente considerado o primeiro perseguidor de cristãos depois de Nero.

Referência Bibliográfica:

VV.AA. BÍBLIA SAGRADA, Universidade de Navarra, Edições Theologica, Braga, PT, 1990;
Kümmel,W.G.; INTRODUÇÃO AO NOVO TESTAMENTO, Paulus, 3ª Edição, São Paulo,SP, 2004