Transcrevo abaixo, na íntegra, artigo publicado no dia 01/nov/2016 por Dr. Jorge Béja, articulista da Tribuna da Internet, que aponta a dificuldade de servir a dois senhores.  Texto que guardei com carinho, e face a necessidade do impeachment do atual prefeito, vale relembrar. Vamos ao texto:

A eleição de Marcelo Crivella, bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, para prefeito da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, me fez recordar uma época da minha juventude. Contei tudo ao nosso editor Carlos Newton, que me pediu que transformasse o relato em artigo para nossos leitores. É o que faço. Emprego pronomes e verbos nas primeiras pessoas, do singular e do plural, por não encontrar outra forma de relatar fatos de minha vida, nunca esquecidos, e agora revividos em razão do momento político.

Desde os 10 até os 19 anos de idade estudei interno no Colégio São Bento (Alto da Boa Vista), semi-interno no São Bento da Praça Mauá (Rua Dom Gerardo) e interno no Colégio Salesiano Santa Rosa (Niterói). Perdi minha mãe cedo — e ela muito nova, 49. Meus irmãos solteiros e meu pai trabalhavam. Saiam de casa bem cedo e voltavam no início da noite. E o melhor caminho era mesmo que o filho fosse estudar em regime de internato. Mas nas férias do meio e do final do ano vinha para casa.

RELIGIOSIDADE – O convívio diário com os monges beneditinos e os sacerdotes salesianos despertaram a religiosidade, que era o amparo que Deus me deu para amenizar tanta saudade que sentia. Em ambos os colégios os estudos eram rigorosos. No São Bento integrei a JEC (Juventude Estudantil Católica) e no Salesiano fiz parte do chamado “clero”, onde comecei a estudar Teologia e me dedicar ao estudo do Latim.

Este intróito se justifica. Sem ele, o relato a seguir ficaria incompleto, sem o começo. Sempre durante as férias, eu frequentava a Igreja Bom Jesus do Calvário da Via Sacra, na Rua Conde de Bonfim 50, Tijuca. O diretor da secretaria da Igreja, Henrique Dias (também chamado de sacristão) me aceitou como acólito. Seu Henrique me deu a batina vermelha e minha irmã fez o sobrepeliz branco. Era assim que me vestia para participar das celebrações, ajudando (“acolitando”) missas, casamentos e batizados.

ROTINA RELIGIOSA – Sábado ao cair da tarde, casamentos, um atrás do outro. Naquela época, a igreja Bom Jesus do Calvário era uma das preferidas das noivas. Domingo, na parte da manhã, a missa solene das 10 horas. Igreja lotada. Todos os 20 integrantes de irmandade presentes, vestidos com seus trajes litúrgicos (túnica e capas pretas postas sobre os ombros até a cintura). O som do órgão de tubo era — e continua a ser — maravilhoso. E os cantores de primeiríssima. Tudo era sóbrio, silencioso e solene. E assim continua ainda hoje, mesmo sem a pompa de outrora.

O celebrante chegava por volta das 9h:30h. Era um sacerdote já de certa idade, sempre de batina branca, e muito reverenciado por todos. Ele teve atenções por mim. E eu por ele. Quando me falou que eu pronunciava um latim “puro, claro e bem articulado”, disse-lhe que também sabia ler, escrever e dialogar em latim. Surpreso, ele me respondeu, já em latim, que também conversava em latim. Daí em diante passamos a ser próximos. Ele passou a ser meu confessor. E me dispensava o mesmo carinho que os beneditinos e salesianos.

O CÔNEGO – Ele era chamado apenas de “cônego”. Quando chegava ouvia-se dizer “o cônego chegou”. Mas eu sabia seu nome. E pelo nome sempre o tratei. Antes da missa era eu que preparava seus paramentos e os colocava nele. Depois da missa das 10 horas das manhãs de domingo, a igreja servia um café reforçado para todos, num salão ao lado da sacristia. Tempo bom, que não volta mais.

Até então nada de excepcional. Era um jovem de 15/16 anos ajudando, nas férias escolares, missas e outras celebrações na igreja. Nem o diálogo em latim era visto como raridade. Naquele tempo o ensino era outro. Mas chegou um dia que contei tudo para meu pai, e ele me perguntou como se chamava esse idoso sacerdote que gostava de mim e eu dele. “O nome dele é Cônego Olimpio de Mello”, respondi. Meu pai pediu para repetir e em seguida me disse:

“Meu filho, este padre foi prefeito do Rio, na época em que a cidade era o Distrito Federal. Ele volta e meia comparecia ao Palácio do Catete e entrava direto para falar com o presidente Getúlio Vargas e ninguém o impedia (meu pai naquela época integrava a guarda pessoal do presidente). O presidente Vargas o considerava muito. Foi ele um dos fundadores do PSD (Partido Social Democrático). Ele foi prefeito de abril de 1936 até março de 1937. E fez muito pela cidade”.

Então, meu querido pai começou a contar como foi o governo do ex-prefeito padre Olimpio de Mello.

SERVIR A DOIS SENHORES – O fato de saber que o cônego Olimpio de Melo tinha sido prefeito do Rio na época em que a cidade era o Distrito Federal em nada alterou minha amizade por ele. Demorou muito até que um dia eu tive a liberdade de fazer uma pergunta a ele e a respeito o seu passado na política. Ele parecia cansado. Sentado e cansado. Me sentei ao seu lado, ele sorriu, colocou sua mão direita sobre a minha mão esquerda. E nenhum de nós disse algo ao outro. De repente, disparei: “O senhor que foi político e prefeito do Rio, não acha que é incompatível um sacerdote ser prefeito de uma cidade?”. Ele ouviu, fixou o olhar no chão, suspirou fundo, me olhou bem dentro dos meus olhos e respondeu: “É, sim. Não se pode servir a dois senhores”. E nada mais respondeu.

Ficamos sentados mais uns cinco minutos em silêncio. Só nós dois. E antes dele se levantar, me disse: “O rebanho de um pastor é o mesmo de um prefeito. Mas de um se exige piedade, respeito, santidade, pois ele se consagrou a Deus e a pregar o evangelho. Já o prefeito, não”. Dito isso, se levantou, me deu um abraço, beijei sua mão e cada um tomou seu rumo.

Fonte: http://www.tribunadainternet.com.br/