DIVISÃO E CONTEÚDO

Não é fácil estabelecer uma divisão que ofereça a ordem precisa no desenvolvimento do conteúdo do Apocalipse, especialmente a partir do capítulo 4 em que o autor começa a descrever as visões sobre os últimos tempos. Com efeito, há temas que parecem repetir-se, como os castigos que antecedem o fim, como:

  • Ap 6,1-15: Abertura dos selos;
  • Ap 8,6-9,21: Abertura do sétimo selo e o toque das trombetas;
  • Ap 7,9-17: O triunfo dos eleitos no céu;
  • Ap 14,1-5: O Cordeiro e seus eleitos;
  • Ap 19,1-10: Canto de triunfo e núpcias do Cordeiro;
  • Ap 14,6-11: Os anjos anunciam o julgamento;
  • Ap 18,1-3: Queda da Babilônia.
  • e outros…

Às vezes interrompe-se bruscamente o relato duma visão para dar passagem a outra:

  • Ap 8,2: Sete anjos diante de Deus, que recebem sete trombetas;
  • Ap 10,1: Anjo forte descendo do céu, envolto numa nuvem..;
  • Ap 12,1: Um grande sinal apareceu no céu: uma Mulher vestida com o sol…;
  • etc…

Em algumas ocasiões encontram-se temas que parecem romper o ritmo da narração, como o das duas testemunhas (cf 11,1-3), ou da mulher celeste (cf. 12,1-17). Tudo isto faz pensar a alguns estudiosos que o texto atual do Apocalipse poderia ser o resultado da refundição de duas obras anteriores de São João sobre o mesmo tema.

Tal hipótese não é demonstrável, mas nota-se certo desenvolvimento temático. A partir do capítulo 4, se aponta o desenlace de um conflito dramático entre Cristo e os poderes do mal, que culmina nos últimos capítulos (cf. Ap 19,11-22,5). Mas, o final já aparece antecipadamente, antes do seu desenlace. O autor expõe em cada uma das visões a totalidade de sua mensagem, não seguindo critérios de ordem cronológica usuais.

Utiliza recursos literários, dando um aspecto de novidade crescente, mantendo no ar a atenção do leitor até o fim. Utiliza como elemento literário básico o número 7, depois das sete cartas às Igrejas (cf Ap 1,4-3,22), contempla um livro selado com sete selos (cf. 5,1-8,1), ouve o soar das sete trombetas (cf 8,2-11,15) e vê derramar sobre a terra o conteúdo de sete taças: as sete pragas (cf. 15,1-16,17). Cabe lembrar, que as sete cartas são uma unidade, mas os restantes septenários se conectam uns com os outros: o sétimo selo introduz a visão dos sete Anjos com as sete trombetas (cf 8,1-2), e ao soar a sétima trombeta o autor contempla o Santuário de Deus de que saem os sete Anjos com as sete taças (cf 11,19; 15,5). Depois de derramar a última taça, são mostrados os adversários, os combates finais e a exaltação da Igreja (cf Ap 17-22).

O recurso tão freqüente ao número sete fez com que alguns estudiosos tenham optado por dividir o livro em sete atos de sete cenas cada um, mas não é um esquema rígido.

Após o toque da sétima trombeta (cf Ap 11,15), perde-se relevo o esquema septenário, e aparecem com força os simbolismos da mulher, as bestas, o Cordeiro e a cidade.

A partir das próximas postagens estaremos apresentando os 22 capítulos da obra de São João.

Referência Bibliográfica:

  • VV.AA. BÍBLIA SAGRADA, Universidade de Navarra, Edições Theologica, Braga, PT, 1990;