1. INTRODUÇÃO

Toda pessoa sincera que aceite a Deus como Pai e queira fazer sua vontade (Mt 6,10) põe-se o problema de como tornar tal propósito realidade em sua vida neste mundo. É a isso que se propõem os Exercícios Espirituais de Santo Inácio, mediante um processo constituído por duas ações básicas: 1) a prática da oração, ascese e exame; e o 2) discernimento das moções espirituais percebidas a partir daquelas práticas”.

 

  1. ORIGEM DOS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS (EE)

Em combate com soldados franceses, no cerco de Pamplona, Espanha, Inácio é ferido na perna por um obus (1521). Depois é levado para o castelo da família na vizinha Loyola, onde pede para leitura romances de cavalaria.

Não havia tais livros, mas, apenas a Vita Christi, de Ludolfo, o cartuxo, e o Flos Sanctorum, ou Legenda Dourada, do dominicano Tiago de Voragine, que narra a vida dos santos. Tais leituras atuam sobre Inácio.

Na época, estava Inácio com 30 anos, possuía uma cultura limitada (mal lê e escreve), sente-se dividido em sonhos: a) o serviço de uma grande dama; b) imitação dos santos.

Com isso inicia sua experiência de discernimento espiritual, que marcará sua vida e os EE, tudo centrando sobre os mistérios da vida de Cristo”.

Após nove meses, ainda mancando, dirige-se em lombo de mula para o santuário beneditino de Montserrat; durante três dias faz uma confissão, para “revestir as armas de Cristo”.

Vai a Manresa, permanece por um ano; a) reza intensamente; b) conhece terrível crise de escrúpulos;  c) experimenta que Deus o ensina como “um professor ao aluno”. Recebe: a) graças místicas; b) tem percepção da Trindade; c) consciência de como Deus teria criado o mundo; d) visão interior da presença real de Cristo na eucaristia; e) intuição frequente da humanidade de Cristo e f) uma vez, de Maria.

Iluminação do Cardoner: é durante sua estada em Manresa, que Inácio concebe e redige na sua substância os Exercícios Espirituais. “Inácio persuadiu-se de que sua experiência tinha um valor universal, o que tornava legítimo propô-la a outros”.

 

  1. FONTES

Textos que serviram de quadro referencial para sua conversão:

  1. a) Vita Christi: Escrito por Ludolfo, sempre terminados por um “colóquio”. Toda a espiritualidade de Ludolfo está centrada em Jesus Cristo e na oração sobre quatro partes da vida do Senhor: vida oculta, pública, padecente e gloriosa.
  2. b) Legenda Dourada: vidas de todos os santos. Fala da inteligência e da vontade… os mais difíceis de vencer, porque são os reis e senhores de todas as nossas decisões livres, das “eleições” que tomamos e das obras que escolhemos.
  3. c) Ejercitatório de la vida espiritual. Publicado pelo beneditino Garcia de Cisneros em 1500, e tributário da Devotio Moderna holandesa, a qual se caracterizava pela preocupação com a vida interior e intensa.
  4. d) Imitação de Cristo: Escrita por Tomás de Kempis. Inácio recomenda sua leitura a partir da 2ª Semana.
  5. e) Meditações sobre a vida de Cristo: Escritas por pseudo-Boaventura, permitirá a contemplação de sua divindade.
  6. f) Manuais de confissão: Editados na época de Inácio, há sinais deles no texto dos EE: para rever os pecados, considerar os locais em que se viveu, o uso de certas palavras.

A partir de então a Igreja consagrou aos EE mais de 600 exortações, aprovações e recomendações, destacando-se em 1922, a constituição apostólica de Pio XI declarando Inácio Padroeiro de todos os retiros, casas e obras dedicadas aos Exercícios Espirituais.

 

  1. UTILIZAÇÃO DOS EE

Se nos aproximarmos do livrinho de Inácio apenas como “leitores”, ficaremos decepcionados. Porque desde as primeiras linhas, fica claro que não se trata de obra de espiritualidade, livro de meditações. Há ali exercícios, coisas para se fazer.

Objetivo dos EE é “vencer-se a si mesmo”. A intenção do autor: “Ajudar sua liberdade” (50), “que o sensível obedeça à razão” (87), “ordenar a sua vida sem ser dominado por um apego desordenado” (21).

Vocábulo frequente: “vontade”. A vontade de Deus é algo que se pode “sentir”, isto é, perceber por meio de uma experiência interior, próxima da degustação. Começa aqui o discernimento dos espíritos.

Inácio previa quatro modalidades: 1) Os de primeira semana (para a maioria das pessoas); 2) Os EE leves; 3) Os EE integrais na Vida Cotidiana (EVC); 4) Retiro durante quatro semanas consecutivas.

 

  1. ORIENTADOR DOS EE

Se um exercitante não obedece a aquele que dá os EE e quer se conduzir pelo seu próprio juízo, não convém continuar a dar-lhe os EE.

Orientar EE não é serviço privativo de jesuítas, ou mesmo de religiosos ou padres.

Exige-se do orientador, aptidão.

  1. a) Educação da oração: é um pedagogo cuja primeira missão é velar pela efetividade da oração do exercitante. Não cabe ao orientador fazer sermões. O orientador não está ali para chamar a atenção para si mesmo. Ele deve apenas abrir caminhos que o exercitante deverá explorar por si mesmo. Os pontos da oração são percorridos devem ser percorridos com uma breve explicação. O orientador é convidado a não depositar sua esperança em si mesmo e em recursos pessoais. Sua esperança deve estar antes na ação do Espírito e no cuidado do exercitante.

Talvez seja necessário a passagem por períodos de pré-exercícios, a ser elaborado pelo orientador. Cabe lembrar, que a educação na oração, finalmente, pode implicar partilhas entre os exercitantes de um mesmo processo de EE.

  1. b) Andamento dos EE: Não constituem um quadro rígido com dias contados para cada etapa, nem pela escolha estrita da matéria a ser trabalhada na oração.
  2. c) Prática do discernimento: A principal competência de um orientador está, portanto, na capacidade de fazer discernimento dos espíritos, para que Inácio oferece duas séries de regras (313-336). Da mesma forma, espera-se que o exercitante vá adquirindo a mesma capacidade de discernimento no transcorrer dos EE.

Os EE não são um período de piedade contemplativa, mas comportam uma convocação do Senhor, um combate interior que conduz a uma opção de ação.

 

  1. DESTINATÁRIO DOS EE

Os EE completos não se destinam a todos, e o próprio Inácio sublinha que deveriam ser dados apenas a pessoas muito aptas. Pessoas aptas: são aquelas que desejam fazer alguma escolha de seu estado de vida, alguém que tenha expectativas espirituais elevadas e também que possa prestar maior serviço ao próximo. Há pessoas que precisam esperar certo tempo.

Não evitar o exercitante ao qual falte talento ou cultura, o que poderia indicar uma opção elitista, que destinaria apenas a pessoas dotadas de privilégio de uma vida espiritual profunda.

O autor do EE era: a) realista: Os EE completos, exigem reflexão, crítica interior, concentração acentuada etc…, que poderia vir a ser um fardo insuportável e injusto para muitos; b) humilde: pois gente simples pode ter muito bem uma vida espiritual profunda sem jamais fazer os EE.

 

  1. ESTRUTURA GERAL DOS EE

Quadro do Pe. Gilles Cusson,SJ, com seus dois planos: 1) Objetivos: conteúdos do EE); 2) Subjetivo: fim pretendido em cada etapa.

  1. PRINCÍPIO E FUNDAMENTO (23)

PLANO OBJETIVO: Visão unitiva da fé cristã.

PLANO SUBJETIVO: Atitude fundamental de presença real como filiação e fraternidade na fé.

  1. PRIMEIRA SEMANA (24-44; 45-90)

PLANO OBJETIVO: Pecado: universal e pessoal. Amor salvador.

PLANO SUBJETIVO: Consciência da própria pobreza. Experiência da esperança cristã.

  1. SEGUNDA SEMANA: O REINO (91-100)

PLANO OBJETIVO: Cristo: missão sacerdotal, sacrifical, universal. Participação do cristão.

PLANO SUBJETIVO: Realismo da presença. Oferenda global e radical.

  1. VIDA OCULTA (101-134; 261-272)

PLANO OBJETIVO: Infância e vida oculta: ser salvífico de Cristo.

PLANO SUBJETIVO: Contemplar, descobrir, desejar, tornar-se íntimo.

  1. JORNADA INACIANA (128-157; 162-189)

PLANO OBJETIVO: Duas Bandeiras, Classes de Pessoas, Grau.

PLANO SUBJETIVO: Iniciação ao discernimento pessoal: disponibilidade e matéria de eleição.

  1. VIDA PÚBLICA (158-161; 272-288)

PLANO OBJETIVO: Do Batismo à entrada em Jerusalém.

PLANO SUBJETIVO: Contemplação-eleição. Escuta e acolhida da Palavra; adesão à ação do Espírito por uma resposta personalizada.

  1. MISTÉRIO PASCAL, TERCEIRA E QUARTAS SEMANAS (190-209; 218-229; 289-312)

PLANO OBJETIVO: Da Ceia à Igreja. Ação salvífica de Cristo: pessoal, universal, permanente.

PLANO SUBJETIVO: Comunhão com a ação de Cristo. Consentir por toda vida, pela eleição, na morte-ressurreição-vida n’Ele.

  1. CONTEMPLAÇÃO “AD AMOREM” (= PARA ALCANÇAR O AMOR) (230-237

PLANO OBJETIVO: Para cultivar o fruto dos EE.

PLANO SUBJETIVO: Leitura de fé, centrada no amor, para crescer no amor.

Referência Bibliográfica:

  • FILHO, S.C. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA, Um Manual de Estudo, Ed. Loyola, São Paulo,SP, 2014.