A ANTROPOLOGIA DOS EE

Como os EE vêem a pessoa, o ser humano? O Princípio e Fundamento (EE 23) apresenta a pessoa como um ser que tem uma origem, uma caminhada para percorrer e uma meta a atingir. É um ser “finalizado”: criado por Deus, para louvar, reverenciar e servir, e assim salvar sua alma, através de um caminho pessoal e livremente assumido.

Mas também se diz nos EE que o ser humano pode sair da órbita divina para a qual foi criado. A história evidencia que, com frequência, ele nem louva, nem reverencia, nem serve a Deus e, consequentemente, sai da órbita de salvação para entrar numa órbita de perdição. No entanto, a pessoa “fora de órbita” pode voltar, e é sobre esse retorno permanentemente possível que se articulam os EE.

Inácio utiliza uma linguagem precisa que caracteriza a maneira como ele concebe o ser humano (EE 1):

  1. Alma: é o princípio espiritual da pessoa em contraposição ao corpo. Como expressão de liberdade da pessoa enquanto relacionada com Deus na história.
  2. Preparação: A reentrada na órbita divina só se verifica mediante uma séria atividade pessoal que supõe tanto a cooperação com o método como a abertura à graça divina. Os EE, como método de cooperação humana preparam e ajudam, não só pelo conhecimento, mas também pela educação da vontade e do coração.
  3. Disposição: Pode sugerir uma disposição natural ou bem-estar corporal, como “rezar de joelhos ou sentado, segundo a disposição do corpo” (EE 252) ou “de acordo com a disposição das pessoas (…), a idade, letras, capacidade” (EE 18).
  4. Afeição: A efetividade representa um papel significativo no processo espiritual. As afeições são “desordenadas” quando não se orientam para Deus e dificultam a livre atividade de nossas forças, impedindo-as de se submeter à vontade divina. Mas, os EE não falam apenas de “afeições desordenadas”. Eles visam principalmente para gerar afeição, enamoramento, que se revelam na adesão a pessoa de Cristo. Para encontrar seu rumo existencial, ele deve vencer as afeições desordenadas e trilhar o caminho que leva a Deus.
  5. Afeiçoes desordenadas:
    • Tristeza, inquietude por falsas razões, supervalorização dos obstáculos (EE 315);
    • Obscuridade, inclinação para coisas baixas, desconfiança, falta de esperança (EE 317);
    • Desejo de ser menos generoso, medo (EE 325);
    • Falta de sinceridade e de docilidade à orientação (EE 326);
    • Busca de consolações e maiores graças como recompensa por servir a Deus (EE 322);
    • Apego aos bens que possui (EE 155);
    • Repugnância pela pobreza (EE 157);
    • Amor-próprio interesseiro (EE 189).

É preciso vencer as “afeições desordenadas”, o que não significa suprimi-las, mas sim “não se determinar por nenhum afeto”.

No entanto, a pessoa nem sempre consegue saber se a afeição é positiva ou não, porque, quando a efetividade não está suficientemente desenvolvida ou madura, bens aparentes e até um verdadeiro mal podem ser apresentados como bem e vice-versa. A pessoa humana é como a bússola: se for deslocada do norte magnético, começara a girar em torno de si mesma, sem rumo.

Para quem está em processo de ordenação. Inácio propõe os diferentes meios que compõem os EE: a oração; meditação; contemplação; vários modos de exame; discernimento e as adições.

Resumindo, Inácio oferece toda uma estratégia de luta contra as “afeições desordenadas” que envolva a totalidade da pessoa num caminho de liberdade pessoal e responsavelmente assumida.

Referência Bibliográfica:

  • FILHO, S.C. OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO DE LOYOLA, Um Manual de Estudo, E. Loyola, São Paulo,SP, 2014. Pág. 27-28.