Quando jejuardes, não fiqueis com o rosto triste como os hipócritas” (Mt. 6,16)

Somos Povo de Deus, rumo à Terra Prometida, e, estamos num deserto diferente, com desafios: de violência, desemprego, fake News, corrupção etc…, mas cabe neste deserto, também, a presença de Deus, que nos acompanha até o fim. E, neste caminhar, chegamos a Quaresma, tempo de nos esvaziar das coisas do mundo e nos reabastecer do amor de Deus. Neste tempo, Jesus vai a nossa frente, mostrando um caminho novo para nossas vidas. É tempo de reflexão sobre como anda a nossa solidariedade, nossa partilha, nosso amor e nossa gratuidade. Tempo de pacificar o nosso interior.

São características deste tempo: A oração (para com Deus), a esmola (para com o próximo) e o jejum (comigo mesmo). Na oração não devemos ter um coração endurecido, mas será um deixar-se nas mãos de Deus para ouvir a Sua voz. No jejum, que tal pensarmos como São Francisco de Assis (†1226): “Desejo, realmente, poucas coisas, e as poucas coisas que desejo as desejo muito pouco”. E, na esmola, que tal compartilhar, ser generoso, como dizia a canção: “Dar do pouco que se tem / ao que tem menos ainda / enriquece o doador, / faz sua alma ainda mais linda”.

Utilizemos, este tempo para a prática do jejum, que é um “olhar amoroso e vigilante” sobre si mesmo; uma tomada de consciência sincera na direção de uma transformação profunda. Quem bem se utilizou do jejum, foram os Padres do Deserto (a partir do Séc. III), que pela prática do jejum criavam um espaço vazio, onde o Espírito de Deus repousava nestes tempos, permitindo que eles distinguissem o essencial do supérfluo, tornando-os: mais humildes; mais compreensivos com as fraquezas alheias; mais misericordiosos, e desta forma se moldavam mais a Jesus, que pela Sua compaixão, se padece com os que sofrem.

Hoje, nossa sociedade valoriza o ser humano, em função do que consome: “consumo, logo existo”. Então, vendo a sociedade no estado que se encontra, pergunto: – o que me anima?Me anima o desejo de união com Deus, ou seja, a busca da vida em plenitude. Para esta experiência quaresmal vale exercitar algum tipo de jejum:

  • Jejum da palavra: aprender a escutar
  • Jejum de pensamentos: para viver a realidade do presente
  • Jejum de internet: para que tanta informação?
  • Jejum de bens supérfluos: para ser capaz de agradecer o que tenho e possuo
  • Jejum de ressentimentos: a vida precisa fluir

Para maior aprofundamento recomendo o livrinho: Sobre a acusação de si mesmo – O caminho da humildade de Jorge M. Bergoglio (Papa Francisco), publicado em 2005, na Argentina, quando era cardeal de Buenos Aires, que condena o apontar e condenar pela língua, ou seja, o pecado de fofocar, conhecido também como a “Pastoral da Língua”.

Enfim, quaresma é tempo de reconstrução, tempo de compaixão, tempo de solidariedade, tempo de ânimo e disposição para esta travessia. Que saiamos mais atentos deste tempo de experiência. Como bem nos alerta o rabino Nilton Bonder: “Jejuar é dar espaço para outras fomes”. Lembrando que receber as cinzas, significa que desejamos conversão, pois estas simbolizam o nada diante do criador, pois “somos criados do pó da terra e ao pó voltaremos”.

Boa Quaresma!