Quando lançamos âncoras, queremos que o barco não fique à deriva, pois, assim devemos fazer em nossas vidas, para não sermos abatidos pelos ventos ou pelo mar bravio das tempestades.

Hoje, constantemente lançamos âncoras em mar revolto, face aos problemas políticos-sociais e ideologias de um lado e outro, bem como, também, pelas características do culto a Deus a partir de Maria de cunho devocional, tais como: Terço dos Homens; prática das Mil Ave-Marias; visita de Nossa Senhora “Três vezes admirável”; oração a “Nossa Senhora que passa na frente e devoção a Nossa Senhora desatadora dos nós.

Soma-se a isso o incremento de Santuários locais e regionais, em torno de diversas “Nossas Senhoras”. Também, o fenômeno do aumento de videntes que dizem receber uma comunicação direta de Maria. Por fim, mas, ainda, sem esgotar o leque devocional, temos o uso de correntes por alguns, como “escravos de Maria”, conforme o Tratado da Verdadeira Devoção a Nossa Senhora, de Grignon de Montfort, de 1717.

Apesar de todo esforço devocional, o número de fiéis continua a diminuir e em direção contrária avoluma-se enorme vaga evangélica, cada vez com mais espaços nos meios sociais e políticos. Há, ainda, os ateus, que tem provocado o aumento daqueles sem religião.

Uma “ancoragem da devoção mariana”, em contexto tão diverso e turbulento, se torna cada vez mais complexo para o congregado mariano, que vivencia o culto cristão de forma diferenciada a luz da liturgia, tais como as práticas devocionais: do rosário, novenas, consagração a Maria, procissões e ladainhas. Transparecendo, dessa forma uma forte atitude de devotamento.

Mas, o culto cristão, em sentido pleno, é maior que devoção, pois podemos perpassá-lo em três níveis: 1) ético-existencial; 2) místico; 3) ritual. O primeiro nível significa o culto verdadeiro, significa o serviço a Deus na vida, através do amor solidário, da prática do bem e da luta pela justiça. O segundo nível, o místico, mostra que devo buscar a espiritualidade, com uma experiência de Deus na minha vida, de forma solidária e dialogal, que me faz aproximar de meu próximo, mantendo um vínculo relacional de amor. O terceiro nível, deve ser a expressão de forma comunitária, a partir do encontro na Liturgia, que é o culto oficial da Igreja.

Para todo cristão a ancoragem imprescindível deve ser fundamentada no culto a Maria, pois Maria é membro, símbolo e mãe da Igreja, por causa de sua relação ímpar com Jesus. Porque mãe, companheira e serva do Senhor, torna-se para nós Mãe, na ordem da graça (Lumen Gentium 61). E, nessa relação Jesus-Igreja, já nos fundamenta o culto à Maria, através da Liturgia e da Devoção. Pois, o culto a Maria é bom e recomendável, quando exercitado de maneira lúcida:

Recomenda-se o culto à Maria, evitando tantos exageros quanto a demasiada estreiteza de espírito. A verdadeira devoção a Maria não consiste num estéril e transitório afeto, nem numa vã credulidade, mas no reconhecimento da figura da Virgem Maria e no seguimento de suas virtudes (Lumen Gentium, 67).

Mas, não podemos fugir do horizonte devocional da população, que escapa do controle do clero e da teologia, tudo junto e misturado, onde se confunde facilmente: devoção ou devocionismo. Vejamos dois exemplos: 1º) Canto de “Nossa Senhora”, de Roberto Carlos, vemos como a linguagem do devocional rompe os limites do dogmaticamente correto:

Grande é a procissão a pedir
A misericórdia, o perdão
A cura do corpo e pra alma a salvação.
Pobres pecadores oh mãe, tão necessitados de vós
Santa Mãe de Deus tem piedade de nós

2º) No carnaval de 2017 em São Paulo, a Escola de Samba Unidos de Vila Maria escolheu como samba-enredo os 300 anos de Aparecida, onde o refrão do samba exprime a típica postura de reverência do devoto:

Aos teus pés vou me curvar, Senhora de Aparecida
A prece de amor que nos uniu
Salve a padroeira do Brasil

A Igreja considera a devoção aos Santos e a Maria como algo salutar. Já o devocionismo consiste numa forma deficiente de viver a piedade.

Cabe lembrar, que o Papa Francisco, na exortação Apostólica Evangelii Gaudium (Alegria do Evangelho) defende o resgate da piedade popular como precioso caminho de evangelização. E, nos números 122-126 do referido documento, o Papa Francisco ressalta “a força evangelizadora da piedade popular”.

Reconhecemos, como Francisco, que a piedade popular, com características marianas, está de acordo com a motivação que nós congregados marianos temos, a partir da nossa Regra de Vida em seu nº 11ª, que nos pede “a busca permanente da santidade pessoal”, sem o qual seria um equívoco fazer do devocional a base da ação evangelizadora da Igreja.

Podemos renovar nossa devoção a Maria a partir das características de Maria, apresentadas pelo Papa Paulo VI (cf. Marialis Cultus nº 16-20):

  1. Ouvir a Palavra de Deus e cultivá-la no coração;
  2. Dedicar-se à oração;
  3. Exercitar a maternidade: como Maria, a Igreja é mãe, que gera os filhos no batismo e cuida deles, nutrindo a fé… (nossos marianinhos);
  4. Oferecer-se a Deus, assim como Maria, que é mestra da vida espiritual para cada um dos cristãos
  5. Estar sintonizado com a Liturgia;
  6. Ter sensibilidade ecumênica.

A devoção a Maria é ancoragem possível, desde que nos mantenha no foco do Seguimento de Jesus, do discipulado e da missão. Pois, Ele, Jesus Cristo, Mestre e Senhor, nos guia na direção do Reino de Deus, para que todos tenham vida, e em abundância (Jo 10,10). Por isso, como congregados marianos, devemos sempre repetir, em nossos momentos de dúvidas e dificuldades: “Vinde, Mãe em nosso auxílio”.

Salve Maria!

Referência Bibliográfica:

VV.AA. ACADEMIA MARIAL DE APARECIDA: APARECIDA – 300 ANOS DE FÉ E DEVOÇÃO. Texto: A devoção a Maria: uma ancoragem possível, por Afonso Murad, pg 171-198. Editora Santuário, 2017.