Imaculada Conceição

3) No Protoevangelho (Gn 3,15), pergunta-se: Quem é essa mulher? E qual será sua descendência?

R: No texto de Gn só há uma mulher: aquela que com Adão pecou. Mas, o texto tomado ao pé da letra (como um judeu o entendia ou ainda entende, se refere a Eva.

Quanto a descendência da mulher, seriam todos os homens e mulheres fiéis a Deus através dos tempos, que deverão travar batalha conta o Sedutor e seus seguidores, cabendo a vitória final à linhagem dos bons. Tal é o sentido estritamente literal do texto bíblico ou aquilo que se deduz de uma primeira leitura do mesmo.

A hermenêutica bíblica reconhece, em alguns casos, além do sentido literal estrito, o sentido literal pleno. Isso implica, que as palavras do autor sagrado podem ter um sentido decorrente da própria letra, mas não percebido pelo autor humano.

Deus que é o autor principal e supremo da Escritura Sagrada, terá intencionado esse ulterior significado. É preciso não esquecer que a Bíblia, tendo Deus como autor principal, deve ser considerada como um só discurso ou mensagem, que vai se explicitando aos poucos.

Por isto, é necessário comparar os textos bíblicos entre si, onde os mais antigos prenunciam os mais recentes e os mais recentes ilustram e revelam plenamente o sentido dos mais antigos.

Ao aplicar este princípio ao texto abaixo:

Gn 3,15: “Porei inimizade entre ti e a mulher,
entre tua descendência e a descendência dela:

esta te ferirá a cabeça

e tu lhe ferirás o calcanhar”.

Podemos dizer que o descendente da mulher que concretamente pisou na cabeça da serpente ou do tentador: foi o Messias Jesus. E a Mãe desse Senhor vitorioso foi Maria Santíssima.

Então, o sentido literal pleno (sentido que decorre da letra plenamente entendida) aponta Maria e Jesus Cristo como protagonistas da luta decisiva contra a serpente e os agentes da vitória sobre ela.

Daí, se deduz que a Eva (Mãe da vida, em hebraico), inicia uma tarefa que só foi plenamente realizada por Maria, pois o texto nos diz que Eva foi pecadora, porque esteve sob o domínio da serpente; Maria, foi “cheia de graça” e nunca se dobrou sob o julgo do Maligno e até colaborou para a vitória sobre ele.

Em Gn 3,2-7, vemos:

+ Eva envolvida com o Tentador e o pecado para ruína do gênero humano.

Em Gn 3,15, nos é apresentado:

       + Eva, Mãe da Vida por excelência;

       + Eva, plenamente realizada em Maria

       + Maria, intimamente associada ao Messias na obra de Redenção do gênero humano.

        + O papel de Eva é recapitulado em Maria.

De modo atenuado, podemos dizer, que este trecho é o núcleo de toda a Mariologia, ou seja, a ligação por analogia, que existe entre o Redentor (2º Adão) e sua Mãe (2ª Eva).

Vale lembrar, que São Jerônimo (†420) quando traduziu a Bíblia, substituiu o pronome hebraico hu (ele) por ipsa (ela mesma, em latim). Com isto insinuou que a Mulher seria a vencedora na luta contra a Serpente, esmagando-lhe a cabeça. Este entendimento, tornou-se clássico entre os Ocidentais (haja vista o quadro da Imaculada Conceição, de autoria de Murillo).

Mas, tal afirmação não corresponde ao original, que atribui a vitória ao descendente da Mulher… descendente cuja Mãe é explicitamente mencionada e dignificada.

Referência Bibliográfica:

  • Bettencourt, E.T. Curso de Mariologia. Escola Mater Ecclesiae, Rio de Janeiro/RJ, 1997